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Reichenbach:
político, poético e popular
por Carlos Adriano
“Eu me reservo o direito de não ver filme que explora a imagem de criança
com revólver”
“É preciso discutir urgentemente a ética dos filmes que estamos fazendo,
já que somos responsáveis absolutos pelas imagens produzidas. Nunca o
truísmo ‘não há ética sem estética e vice-versa’ esteve tão em pauta.
Demagogia, moralismo e hipocrisia imperam na mídia e na sociedade
brasileira de hoje.”
Assim Carlos Reichenbach manifesta-se sobre uma tendência de certo alarde
na produção audiovisual nacional. Ele aposta que até 2005 surge “no Brasil
o novo cinema da geração Chiapas-Gênova”. As declarações estão nesta
entrevista exclusiva, em que o diretor discute cinema popular e a urgência
necessária da arte: “Que me perdoem os conformistas, cinema é -e tem de
ser sempre- cultura de ponta”.
Reichenbach é um dos mais inventivos e inquietos cineastas brasileiros.
Sua obra autoral foi reconhecida mundialmente em 1985, em Roterdã -seu
“Filme Demência” foi votado como “obra inovadora do ano”. Foi homenageado
pela Cinemateca Real de Bruxelas, com o prêmio L'Age d'Or (por “Anjos do
Arrabalde”, 1986) e o prêmio de Distribuição (“Amor, Palavra Prostituta”,
título de 1980). “Alma Corsária” (1994) ganhou o prêmio de melhor filme no
30o Festival do Novo Cinema (Pesaro).
Nesta entrevista, Carlão -como é chamado por amigos e colaboradores- fala
ainda das implicações políticas do fazer artístico (“só os medíocres têm
medo de sujar as mãos em seu material de trabalho”), do seu processo de
criação e do valor filosófico do cinema num mundo sem muito mais valia (“a
função do criador é colocar o poder contra a parede -cultura é antena e
vigília permanente”).
A estréia de Reichenbach no cinema foi em 1966, com "Esta Rua Tão
Augusta". Além de um experimental mudo nos 60 ("Duas Cigarras"), fez
curtas como "Olhar e Sensação" (1995) e "Equilíbrio e Graça" (2002) e
episódios como "Alice" ("As Libertinas", 1968), "A Badaladíssima dos
Trópicos X Os Picaretas do Sexo" ("Audácia!", 1969) e "Desordem em
Progresso" ("City Life", 1989). Seu primeiro longa-metragem é "Corrida em
Busca do Amor" (1971).
Além do inacabado "Guatemala, Ano Zero" (1969), dirigiu, entre 12 títulos,
longas como "Lilian M., Relatório Confidencial" (1974) e "Dois Córregos"
(1999) -o último lançado em circuito, que, combinando Zurlini e guerrilha,
comoveu uma platéia de 4 mil espectadores em Locarno.
Nascido em Porto Alegre, 1945, veio com um ano de idade para São Paulo,
sua casa e praça até hoje. Descendente de gráficos e editores, desde cedo
cultivou relação com a literatura. Editor dos jornais nos colégios onde
estudou, colaborou regularmente com críticas e ensaios na imprensa do
país. É um dos cineastas mais cinéfilos de que se tem notícia.
Em 1960, com a morte do pai (exorcizada de certo modo em “Filme
Demência”), ele interrompeu os estudos em um colégio alemão na cidade de
Rio Claro, onde se preparava para estudar artes gráficas na Alemanha, e
voltou para a capital, onde aos poucos foi se interessando por cinema.
Cursou a Escola Superior de Cinema São Luiz (que nos 60 reunia o nascente
cinema na cidade) e foi aluno de Roberto Santos, Anatol Rosenfeld, Paulo
Emílio Salles Gomes, Décio Pignatari e de seu grande mestre e mentor Luis
Sérgio Person, que o impulsionou a fazer filmes.
Leitor voraz dos “Cahiers du Cinéma” e um dos únicos assinantes da revista
“Film Culture” no Brasil da década de 60, Carlão foi diretor publicitário
de renome (e sócio) na tradicional Jota Filmes, onde dirigiu e fotografou
mais de 150 comerciais e filmes institucionais entre 1971 e 1974.
Saído do inferno pré-yuppie, investiu o que sobrou da experiência técnica
e empresarial (equipamento, cenário, capital) no que julga seu “filme de
linguagem mais radical”, “Lilian M.”.
Fez direção de fotografia e câmera em longas e curtas, como “Excitação”
(1976, Jean Garret), “Doce Delírio” (1983, Manoel Paiva) e “Aventura, Amor
e Transporte Público” (1991, Bruno de André). Reichenbach lecionou na
Fundação Alvares Penteado, na Escola Superior de Propaganda e Marketing e
foi professor titular de direção cinematográfica na Universidade de São
Paulo. Com sua grande e fiel produtora Sara Silveira, dirige a Dezenove
Som e Imagens Produções.
Reichenbach subverteu os códigos do gênero pornochanchada, com “Império do
Desejo” (1980) e “A Ilha dos Prazeres Proibidos” (1978), “odes ao amor
livre e à revolução permanente”, que fizeram mais de 6 milhões de
espectadores. Mas ainda hoje ele mantém a transgressão, tesa em outro
diapasão.
Alusão e engajamento, extremos do prazer contra o paraíso proibido, a obra
de Reichenbach conjuga uma aguda consciência do cinema com uma generosa
consciência social. É cinema do assombro e do desassossego, dos “filmes
demência”, filmes de cinema para quem “o cinema é manifestação de vida”.

ENTREVISTA
Quais as motivações que o levaram a fazer “Aurélia Schwarzenêga” e do que
trata o filme?
Carlos Reichenbach: Trata-se de um projeto cuja gênese data do final dos
anos 80. Nunca escondi que o resultado final de “Anjos do Arrabalde”,
longa-metragem que realizei em 1986, sobre o cotidiano das professoras de
periferia, e, sobretudo, a sua aceitação popular e crítica, tanto no
Brasil quanto no exterior, foram uma surpresa para mim. Continuo achando
meu filme anterior, “Filme Demência”, muito mais relevante, tanto no
âmbito da invenção quanto no aspecto social e iconoclasta; mas parece que
a maior parte dos meus espectadores fiéis não concorda com isso.
Fui estimulado pelo falecido amigo e “descobridor” Hubert Bals -o
visionário holandês que “inventou” o Festival de Roterdã e que considerava
“Anjos do Arrabalde” um dos melhores filmes da década de 80- a apresentar
qualquer projeto similar e inédito de longa metragem no CineMart. Trata-se
de um evento paralelo ao festival, criado em 1987, que convida cineastas,
distribuidores independentes, canais experimentais de televisão a cabo e
instituições internacionais que co-produzem filmes fora do mainstream para
conhecer os projetos fílmicos apoiados por Roterdã.
Eu imaginei então dois filmes sobre o universo da mulher operária (no
caso, as tecelãs) a serem rodados simultaneamente, com as mesmas atrizes e
praticamente as mesmas locações, mas com dois enfoques absolutamente
distintos: um dos filmes, “Sonhos de Vida”, trataria essencialmente da
questão do trabalho; o outro, “Vida de Sonhos”, do tempo livre.
A premissa do projeto era descaradamente anarco-libertária, pois partia do
conceito de que o tempo livre é o único e verdadeiro espaço de liberdade
do ser humano.
Por outro lado, achei fascinante o desafio de fazer um filme debruçando-me
sobre o individual para falar do coletivo... Na verdade (muito aqui entre
nós), como fã confesso do cineasta japonês Shohei Imamura, sonhei ir mais
longe que o mestre e fazer o mais marxista do filmes contemporâneos.
Em “Eijanaika” (no Brasil, “Aconteceu no Fim da Era Tokugawa”) bem que
Imamura tentou a empreitada de transformar o coletivo em personagem
central dramático, mas -pelo menos para nós ocidentais- foi impossível
entender uma história tão complexa envolvendo um bando de japoneses, todos
vestidos de vermelho, e sempre filmados à longa distância. Eu, fã
incondicional de Imamura, dormi nas duas vezes que tentei assistir às três
horas do épico marxista.
Os argumentos de “Sonhos de Vida” e “Vida de Sonhos” caíram nas mãos (por
obra de Bals) e nas graças do produtor espanhol Herardo Herrero, que era
produtor oficial do cineasta peruano Francisco Lombardi. Durante um café
da manhã no Hotel Central, em Roterdã, ele propôs apresentar o projeto em
parceria comigo, publicamente, no Cinemart. Naquela época, a TV espanhola
ainda co-produzia filmes com a América Latina. Depois de dois anos de idas
e vindas, o projeto acabou indo para a gaveta da minha escrivaninha.
Quando fui reler o projeto, depois de ficar decantando por um ano, me
convenci de que algumas daquelas mulheres fictícias estimulavam histórias
individuais de longo fôlego. Veio daí a intenção de transformar a idéia de
filmes simultâneos num projeto de seis longas metragens, que nomeei de
“ABC - Clube Democrático”. O piloto deste projeto seria um filme, de duas
horas e meia, chamado “Aurélia Schwarzenêga”.
Neste piloto, seriam apresentados todas as personagens principais e os
ambientes referentes que fariam parte integrante em todos os seis filmes.
A idéia deste projeto de produção, em forma de pacote, tomou corpo quando
eu ainda era sócio da Casa de Imagens. Eu ainda não tinha idéia do
trabalho que seria colocar esses filmes (e seus respectivos orçamentos) no
papel.
Foi então que um amigo sugeriu que eu apresentasse o projeto “ABC - Clube
Democrático”, na Bolsa Vitae. Não tive coragem de apresentá-lo como um
conjunto de seis filmes, porque achei que iriam me chamar de louco. Na
proposta que enviei, me comprometi a escrever quatro dos roteiros no prazo
de um ano: entre eles, “Aurélia Schwarzenêga”. Ter ganhado a Bolsa Vitae
me obrigou a encarar definitivamente o desafio.
Escolhi o universo das operárias têxteis porque foram elas as primeiras a
demonstrar historicamente, no Brasil, uma consciência social cristalina
-foram elas as pioneiras dos movimentos grevistas.
No momento de viabilizar o projeto “ABC - Clube Democrático”, eu e a
produtora Sara Silveira resolvemos centrar os esforços na captação de
recursos para o filme piloto da série. Quando uma empresa de produção
francesa nos assinalou com a possibilidade de uma parceria, fomos buscar
Fernando Bonassi para retrabalhar comigo o último tratamento do roteiro de
“Aurélia Schwarzenêga”.
Escrever sozinho as três primeiras versões do projeto foi uma experiência
árdua, sem muito distanciamento crítico. Bonassi foi uma mão na roda no
momento de reconstruir o universo sórdido dos personagens masculinos (um
grupo neofascista que pratica atentados contra nordestinos, negros e
homossexuais), pois é em cima de um aparente paradoxo esdrúxulo que a
trama central de “Aurélia Schwarzenêga” é construída: uma linda e jovem
tecelã negra, fã confessa do astro Arnold Schwarzeneger, mantém uma
relação apaixonada com um neonazista do ABC.
Quais são a estrutura, o processo e o tratamento que você tem imprimido ao
filme? Houve mudanças entre o roteiro e o que se constrói agora na
montagem?
Reichenbach: Talvez algumas lacunas permaneçam abertas referentes à
“Aurélia”. Mas trata-se de um filme ainda em processo. Eu mesmo ainda o
sinto estranho, embora próximo.
Procurei centrar a atenção no coletivo, um grupo de operárias têxteis,
mesmo tendo uma das personagens nomeando o filme. A ação transcorre em
cima de três eixos centrais e narrativos: a família de Aurélia (a casa),
as colegas dela (a tecelagem e o clube que freqüentam) e o bando racista
que acompanha o namorado da protagonista.
Nestes três grupos trafegam vários outros personagens. É óbvio que as
atenções principais do filme se concentram no ambiente de trabalho e do
tempo livre (o Clube Democrático), já que esta foi a proposta da gênese do
projeto.
De qualquer maneira, na hora de colocar o roteiro na película, a filmagem
sempre nos reserva surpresas. Costumo dar início à realização com um
roteiro sempre bem encorpado e detalhado, mas permanentemente aberto à
invenção, ao improviso e às impossibilidades de produção.
Aprendi a seguir as lições preciosas de mestres como Luis Sérgio, Roberto
Santos e Fernando Campos: se na hora H não tenho condições de filmar o que
está no papel, busco resolver o problema com imaginação.
Em “Aurélia”, não consegui filmar a explosão do personagem interpretado
por Selton Mello, o líder de um grupo de pequenos fascistas. Chamei o
diretor de arte e pedi para construir uma enorme pedra de isopor com o
símbolo do integralismo (o sigma) estampado em verde.
Explodimos o sigma em câmera lenta. Tenho certeza de que a seqüência
montada ficou mil vezes mais eficaz do que imaginada no roteiro. Eu sempre
achei que as metáforas foram criadas para serem transformadas em poesia.
Uma das maiores curiosidades (e surpresas) durante o processo de filmagem
foi a minha descoberta gradativa da influência sistemática, e totalmente
inconsciente, do cinema de Fritz Lang na construção da mise-en-scène de
“Aurélia Schwarzenêga”.
Cada remessa de material telecinado do que havia sido filmado dois dias
antes, que eu recebia para conferência (hoje não se faz mais copião em
35mm, mas uma cópia em VHS das cenas rodadas), eu me surpreendia
descobrindo referências explícitas a filmes como “Dr. Mabuse, o Jogador”,
“Vive-se Só Uma Vez”, “O Homem Que Quis Matar Hitler”, “Quando Descem As
Trevas”, “Os Mil Olhos do Dr. Mabuse” e, sobretudo, “M., o Vampiro de
Dusseldorf”, todos de Lang.
É maravilhoso descobrir-se credor (quase involuntário) de um mestre de tal
porte. Num plano da atriz Ana Cecília, que interpreta a severa chefe de
seção das operárias, vista no reflexo do vidro do mezanino da tecelagem,
pode ser detectada toda a atmosfera de “O Segredo da Porta Fechada”.
Na cena em que neonazistas espancam impiedosamente dois nordestinos,
mostradas apenas pelas sombras que se projetam contra a parede branca de
um boteco, é possível enxergar as aterrorizantes cenas de tortura, todas à
sombra, de “Quando Descem as Trevas”.
Ciente das boas influências, resolvi entrar de corpo e alma no filme,
interpretando o patrão das operárias, o dr. Mazini, seguindo o mais
autêntico dos preceitos languianos: nunca mostrar o meu rosto e, de
preferência, sempre enquadrar as minhas mãos (em todos os seus filmes Lang
incluiu um plano de detalhe de suas mãos). Há ainda também uma seqüência
de homenagem explícita no desfecho do filme, mas esta eu mantenho como
surpresa.
Nesse mesmo momento que você está montando seu novo filme, “Aurélia
Schwazenêga”, o Brasil entroniza um presidente com tradição operária e
vocação popular. O que você acha desta “montagem paralela”? Para você faz
algum sentido?
Reichenbach: Um dos aspectos que mais me interessou na pesquisa para a
escritura do projeto, ainda no período da Bolsa Vitae, foi entender a
súbita decadência do ABC com a saída das multinacionais da região. Quis
também compreender com clareza as razões do surgimento do neofascismo na
região no exato momento em que o PT se firmava como partido forte.
No entanto, quero deixar claro, como fiz quando apresentei o projeto na
Vitae, que nunca enxerguei o filme como um tratado sociológico
deliqüescente. Todo material de anos de pesquisa, convivendo com a
operárias da região -peguei ônibus com elas durante um ano e meio e quase
tudo que é dito pelas personagens no filme eu escutei de suas conversas
íntimas- foi utilizado para dar vazão ao meu imaginário a respeito do
universo da mulher operária. Não tive a pretensão, e nem interesse, de
retratar fiel e friamente o que ocorre no ABC; aliás, sempre deplorei a
impostura da isenção profilática do “artista” cirúrgico.
Só os medíocres têm medo de sujar as mãos em seu material de trabalho. Eu
exijo de quem escreve, compõe, pinta ou faz filmes, que coloque a alma
para fora, que deixe verter o sangue das veias ou dê a cara para a porrada
em tudo aquilo que venha a produzir.
Dou risada (quando não vomito) ao ouvir realizadores afirmando a pretensão
de flagrar a realidade tal como ela é. Como diz uma amiga: ao invés de
gastar uma fortuna fazendo filmes, compre uma Polaroid!
O respaldo popular do presidente e a euforia com a eleição podem produzir
algum estado ou fato cultural novo e relevante? Quais suas expectativas
sobre a orientação governamental da nova gestão cultural?
Reichenbach: Sem nenhuma ironia, não me acredito um bom profeta político.
Fujo destes assuntos como o diabo da cruz, porque me sinto suscetível à
ignorância. Evito falar do que não entendo e daquilo que não me emociona.
Cultura, para todo e qualquer poder, é o seu contra-senso.
Continuo achando que é melhor deixar política cultural nas mãos de
sociólogos, eruditos, diplomatas e políticos bons de cintura; porque assim
a nossa função é ficar enchendo o saco e cobrar transparência e eficácia.
A função do criador é colocar o poder contra a parede: seja ele de
direita, centro ou esquerda. Cultura é antena e vigília permanente.
O que seria hoje um cinema popular ou um novo cinema popular?
Reichenbach: Esta é uma das questões mais complexas e normalmente mais
equivocadas nas discussões sobre arte e indústria. Confunde-se, o tempo
todo, cinema popular com cinema comercial.
O conceito de cinema comercial me parece sempre ligado à idéia do
descartável, do efêmero, de tudo aquilo “que está na moda”, daquilo que os
“comerciantes” acham consumível; em suma, tudo que é deplorável na chamada
“indústria cultural”.
Se observarmos com atenção os ciclos que fizeram a história do cinema
brasileiro, acabaremos descobrindo que o autêntico cinema popular sempre
esteve à margem do oficial e “respeitável”.
A chanchada sofreu o preconceito das elites e da classe média por várias
décadas (se não sofrer até hoje). No jargão, a chanchada nunca foi
considerada “comercial”; popular sim, mas nunca comercial, porque foi
incapaz de concorrer com o produto estrangeiro.
Aliás, todo o cinema popular nativo sempre foi visto com desprezo pelos
“senhores de terno e gravata” das “majors” e do comércio cinematográfico
(e mesmo por uma grande parte dos críticos e do jornalismo cultural das
respectivas épocas): a chanchada, a pornochanchada, o filme de cangaço, o
terror de José Mojica Marins, os filmes caipiras e, é lógico, o magnífico
Mazzaropi.
Hoje é difícil apontar de pronto o que é cinema popular. Já o filme
comercial não, porque pode ser reconhecido em todo o cinema subserviente à
televisão: Xuxa, Trapalhões, “Compadecida”, “Descobrimento” etc...
Não acho loucura apontar “Santo Forte”, “Edifício Master”, “Ônibus 174” e
o filme de surf realizado por Arthur Fontes como os autênticos filmes
populares da nossa época. Eles dialogam de igual para igual com o público,
porque chegam a ele de forma honesta (por exemplo: vai ver filme de surf
quem gosta de surf) e sem a máquina e a “embalagem” (leia-se: estética)
sucateada da televisão.
Por que as classes baixas não vão mais ao cinema?
Reichenbach: Esta resposta é simples: porque o cinema (no Brasil) deixou
de ser a mais barata (leia-se, acessível) das atividades no tempo livre de
quem trabalha. Lembro que comecei a fumar com 14 anos, no mesmo período em
que me tornei rato dos cinemas do centro de São Paulo. Naquela época, e
por mais de duas décadas, eu economizava um maço de cigarros para poder ir
quatro vezes ao cinema. Hoje, eu posso comprar quatro de maços de cigarro
(na verdade, deixei de fumar a um ano e meio) e não consigo ir ao cinema.
Seria possível exibir filmes não apenas nas fortalezas-fosso dos
shoppings, mas em favelas e grotões?
Reichenbach: Cinema não é mais um “produto” popular. Seria necessário,
para trazer o publicão de volta, empreender uma extensa revolução na
distribuição e exibição de filmes. Panacéia: porque não transformar o
Carandiru desativado num cinemão de cinco mil lugares (como os que existem
-ou existiam, até recentemente- em Cuba e Moscou) que exibam filmes
brasileiros a 50 centavos?
Qual sua opinião sobre esta onda de filmes brasileiros recentes que têm
mostrado a chamada “classe baixa” com violência? Será que filmes como
“Cidade de Deus” não estariam forjando uma imagem unilateral do mundo
pobre e suburbano?
Reichenbach: Sobre “Cidade de Deus”, filme do qual você está nitidamente
querendo saber minha opinião, eu me eximo de opinar (como cinema) porque,
simplesmente, me neguei a assistir. Eu me reservo o direito de não ver
nenhum filme que explore a imagem de uma criança com revólver na mão.
Estas imagens, que fetichizam a violência e a barbárie, em menos de um ano
estarão à disposição de menores de idade e adolescentes, nos canais de
televisão de maior audiência, e, pior, nos horários mais nobres. Não é
preciso ser profeta ou vidente para antever que os índices de aumento de
criminalidade serão alterados substancialmente.
E, por favor, não me venham com a medíocre justificativa de que isso
existe, que esta “realidade” faz chorar os crocodilos e, por isso, o
cinema precisa mostrar. Quem conhece os filmes e os vídeos da européia
Kaviar, sabe que existem seres humanos (milhares, por sinal) que adoram
comer merda -isso não quer dizer que eu tenha de mostrar esta prática nos
meus filmes!
É preciso discutir urgentemente a ética dos filmes que estamos fazendo, já
que somos responsáveis absolutos pelas imagens produzidas. Nunca o truísmo
“não há ética sem estética e vice-versa” esteve tão em pauta.
Demagogia, moralismo e hipocrisia imperam na mídia e na sociedade
brasileira de hoje. O pediatra que coloca o pinto na mão de um menor de
idade é apedrejado em praça pública; no entanto, quem coloca uma 38 na mão
de um garoto de dez anos é agraciado com todas as estrelas da mídia e o
beneplácito de quem consome e promove o “produto cultural”. Vão me
desculpar, mas pornografia infantil, para mim, é colocar um “berro” na mão
de uma criança.
Que relações você faz entre essas opções de estilo com que certos filmes
têm retratado os deserdados e a miséria social do país e as formas de
abordar tal tema usadas ao longo da história do cinema brasileiro?
Reichenbach: Pois é, voltamos à questão crucial da “despolitização”
cultural que tem assolado o país há duas décadas e, pior, no exato momento
em que a esquerda foi (e é) alçada ao poder pelo voto direto.
O Brasil é o paraíso dos paradoxos. Aqui, ateu é pai-de-santo,
latifundiário faz filme enaltecendo os sem-terra e banqueiro corteja os
sem-teto. De pronto, é possível detectar os motivos que distanciam
abissalmente o cinema político do início dos anos 60 (o “cinema novo”), o
cinema transgressor do final da mesma década (o “cinema marginal”) e o
cinema de resultados da virada de século.
Nos anos 60, nós acreditávamos que podíamos mudar o mundo com nossos
filmes. Toda a minha geração -e a imediatamente anterior- rejeitava o
cinema oficial, chapa-branca e, sobretudo, Hollywood.
Em poucas palavras, o que você pode esperar de quem enxerga no cinema
industrial e no Oscar americano o seu ideal de vida? De uma geração que
prefere trocar a literatura, a dramaturgia, o ideário político, a
curiosidade social, a filosofia prática, pela “cultura” do jornalismo de
atitude (como é conhecido hoje, o antigo “colunismo social”)?
No íntimo, esta gente espera que a situação mundial continue exatamente
como está, de preferência léguas à distância do islamismo, porque enterrou
todas as utopias sob o tapete do conformismo.
Eles detestam (e fazem questão de deixar claro isso) todo cinema
brasileiro da pré-retomada: acham Glauber chato, “Limite” um porre,
Humberto Mauro arcaico, Bressane um saco, e, na certa, devem odiar o
melhor brasileiro dos últimos 20 anos, “O Viajante”, de Paulo César
Saraceni.
A característica mais evidente deste cinema de “fazedores de moda” é o
desprezo às outras artes, aos profetas, à reflexão, à ideologia, e,
sobretudo, à poesia. O que conforta é a certeza de que:
a) Esses filmes não duram mais que uma temporada.
b) Limitação / mediocridade não é questão de geração.
c) Estão surgindo -na mesma medida e no mundo inteiro- os novos cineastas
nascidos à luz de Gênova, da novíssima esquerda, da Ação Global, da TAZ,
etc.
d) Filmes que fazem a história do cinema nativo não aparecem nas listas de
mais rentáveis.
Seria possível fazer um cinema dos arrabaldes, onde houvesse a violência,
mas também a ternura? Qual seria a estética e a ética de um novo cinema
“popular”?
Reichenbach: É engraçado, quanto mais penso nas questões que você levanta,
mais descubro que, no fundo, em “Aurélia Schwarzenêga” eu quis mesmo é
fazer um filme marxista para provocar (leia-se: irritar) todos aqueles que
andam afirmando que o cinema sócio-político (leia-se ideológico), no
Brasil, acabou.
Recentemente, em meio a uma discussão sobre a utilização sem critério da
estética da violência nos filmes recentes envolvendo crianças, uma amiga
cineasta me disse que tinha receio de me revelar seu desejo de fazer um
filme sobre prostituição infantil. Retruquei de imediato que na discussão
ética não importa o assunto, mas a forma de olhar, a maneira de descobrir
o brasileiro com a câmera...
Existe algum mandamento ético para isso? Eu acho que existe: “Amar os
próprios personagens acima de si mesmo”. Não dá para confiar em filmes que
não se detenham alguns segundos nos olhos de seus personagens e que
mascaram o ódio (ou a indiferença) pelos seus personagens com firula
técnica e ausência de humanismo.
Podem criticar “Aurélia Schwarzenega” por vários motivos, mas eu não
admitirei que me acusem de não amar as minhas personagens. Meus filmes
mais recentes (“Anjos do Arrabalde”, “Alma Corsária”, “Dois Córregos”,
“Aurélia” e “Bens Confiscados”) são desbragadas declarações de amor aos
meus personagens. Um amigo denominou esta tendência de neo-humanismo; que
assim seja!
Qual o papel de Betty Faria como produtora de “Bens Confiscados” e também
como atriz (ela, que já trabalhou com você em “Anjos do Arrabalde”)? Do
que fala o filme?
Reichenbach: Após “Anjos do Arrabalde”, Betty Faria, a então diretora de
produção (hoje, minha sócia na Dezenove Som e Imagens) Sara Silveira e eu,
havíamos selado uma intensa relação de amizade. Entre “Alma Corsária” e
“Dois Córregos”, ensaiamos criar uma parceria entre a Dezenove e a empresa
da atriz.
Minha sócia passou dois anos me cobrando um projeto para fazermos com
Betty. O engraçado (ou trágico, conforme a opinião) é que a idéia surgiu
entre os dois enfartos que me acometeram, num espaço de três meses.
Imaginei mostrar cinematograficamente o lento, cruel e gradativo processo
de despersonalização de uma mulher madura, bela, forte, altruísta e
independente, que se permite ser destruída por seu poderoso amante
ausente, um senador da República, através de seus sentimentos mais
prosaicos e nobres.
O “tag line” pode também ser resumido de outra forma: trata-se de uma
melancólica história de amor impossível entre personagens de idades
díspares (a enfermeira Serena e Luís, o filho bastardo do senador),
fragilizados e à sombra das perversões do poder.
“Bens Confiscados” fala de um momento histórico e político do Brasil; da
cultura da corrupção, do tráfico de influências e do abismo ético,
enxergado por personagens que jamais atravessarão "a porta da cozinha" do
poder. Um melodrama político, um inventário das mais abjetas e ocultas
nuances da corrupção, ou mesmo uma grande metáfora da atualidade política
de qualquer país onde o cidadão comum é constantemente traído nas suas
convicções e paixão e conduzido, de maneira sutil, a um gradativo processo
de massificação e perda de identidade.
Desde a gênese do projeto a personagem central, Serena, foi imaginada para
a atriz Betty Faria. Foi ela quem insistiu em abraçar a produção quando
chamei Daniel Chaia para escrever o tratamento final do roteiro comigo.
Ela é a produtora oficial através de sua empresa, que estará associada à
Dezenove e à Casa de Cinema, do Rio Grande do Sul, onde serão rodadas 90%
das cenas do filme.
Entre outros, esperamos contar no elenco com Otávio Augusto, Werner
Schunemann, Beth Goulart, André Abujamra e duas jovens atrizes que
participaram de “Aurélia Schwarzenêga”: Márcia de Oliveira e Fernanda
Carvalho Leite.
Quais são as realidades, personagens e situações que ainda não chegaram ao
cinema?
Reichenbach: Acho que encerro esta fase de filmes afetivos e sociais com
“Bens Confiscados”. Já estou trabalhando com afinco em dois projetos
futuros e obsessivos, resultados óbvios de minha experiência com a
ressurreição.
Em 2001 fui internado no Incor com a perspectiva de morrer em seis horas.
Abriram meu Graal (o coração) à minha revelia e me implantaram três pontes
de safena e uma mamária. Ninguém sai impune de experiências como esta.
Abandonei o cigarro após 35 anos de “tabagismo ideológico” e fiquei
dependente de um remédio que mexe cotidianamente com meu sistema
simpático.
Entendo perfeitamente a necessidade que Hector Babenco teve de filmar o
belíssimo (e incompreendido) “Coração Iluminado”. Ontem, conversando com o
amigo e colega Andrea Tonacci, falamos da necessidade de todo criador em
vivenciar e somar experiências extremas e/ou traumáticas.
Brincando de radicalizar, afirmo que daqui para frente só irei respeitar e
admirar os criadores que tenham tido enfarte ou alguma doença séria, que
tenham penhorado um dia a própria casa, que tenham colecionado títulos
protestados, que tenham sido sustentados pela mulher em alguma ocasião da
vida conjugal, que tenham sido abandonados pelas amantes e/ou tenham amado
duas mulheres ou mais mulheres ao mesmo tempo, que tenham alçado o topo da
montanha e descido ao fundo do poço e, sobretudo, que tenham conhecido de
perto e na própria pele: a fome, a gula, a sede, o porre, a miséria, o
desterro, a glória, a falência, a fartura, o desprezo, a paixão, o
sucesso, o fracasso, a intolerância, o ciúme etc. etc. etc.
A vida experimentada em sua plenitude é o maior manancial da criação. Em
suma, acho que tudo ainda está por ser escrito, filmado, dramatizado e
reinventado. Com “Aurélia Schwarzenêga” e “Bens Confiscados”, irei cumprir
todos os meus compromissos pré-operatórios. Daí em diante, meu cinema terá
uma nova feição.
E como seriam esses novos projetos em pauta?
Reichenbach: Estou decidindo nestes dias que filme irei fazer em 2004. As
novas formas de produção me obrigam a isso: para encurtar o tempo que
separa um filme de outro é preciso estar em pleno processo de captação de
recursos do próximo filme enquanto o filme anterior está sendo filmado ou
finalizado.
Como tenho receio de virar vítima de projeto frustrado, penso sempre em
vários filmes. Dois projetos urgentes penso filmar em Dois Córregos
(interior de São Paulo) e na vizinha cidade de Bocâina: “Oriente” e “O
Amigo Católico”. Como os títulos já explicitam, são projetos de aparente
teor místico. Na verdade, são filmes imaginados à luz do cinema de Carl
Dreyer e Roberto Rossellini.
“Oriente” é uma leitura livre e pessoal dos evangelhos apócrifos. Quero
transformar Dois Córregos na “minha” Jerusalém, contando a história de uma
cineasta (traumatizada por uma recente crise amorosa) que vai à cidade de
Dois Córregos, na companhia de um teólogo, uma jovem assistente de direção
(recém convertida ao islamismo) e um produtor de locações (um homem
simples do local com muita lição de vida a oferecer), em busca dos
cenários naturais de seu próximo filme, intitulado “A Protestante”.
Imaginando um filme interpretado apenas por mulheres, a cineasta
visualiza, no local, o calvário de seu Cristo feminino.
Esse projeto nasceu no dia em que revi “O Evangelho Segundo São Mateus”,
de Pier Paolo Pasolini. Eu estava filmando o curta-metragem “Equilíbrio e
Graça”, em Dois Córregos, um dia após ter assistido o DVD do filme de
Pasolini, e a idéia surgiu, por inteiro, como um delírio inesperado,
quando “me perdi” no meio de uma antiga usina de cana, abandonada às
margens do rio Tietê.
Com o mesmo entusiasmo e disciplina, estou acumulando material visual e
anotações de texto para duas “pensatas anarco-situacionistas”: “A Rebeldia
é Uma Mulher” e “Letícia Bonaparte”.
Meu projeto de vida é colocar estes quatro filmes -“Oriente”, “O Amigo
Católico”, “A Rebeldia é uma Mulher” e “Letícia Bonaparte”- na lata, até o
final de 2005. Preparo também um documentário de longa-metragem, com
possível co-produção européia, intitulado “O Mundo Interditado”, que,
entre outros percalços, envolve a compra de direitos de trechos de filmes
proibidos em várias partes do mundo, os chamados “clássicos da exclusão”.
É um projeto fascinante -e a longo prazo- que tem me obrigado (às vezes
com prazer, outras nem tanto) a assistir tudo que se filmou de mais
bizarro e ousado no mundo. De qualquer maneira, eu prometo: se até 2005
não surgir no Brasil o novo cinema da geração Chiapas-Gênova, juro que
reinvento a pólvora!
A “caméra-stylo” de Astruc está próxima da realidade com o advento do
digital. Qual o impacto desta tecnologia na renovação (ou extinção) do
cinema e como o digital tem afetado a sua própria produção?
Reichenbach: O interrompido projeto coletivo “Empédocle, o Deus das
Sandálias de Bronze”, que coordenei com Eduardo Aguilar nas Oficinas
Culturais Oswald de Andrade, havia sido imaginado totalmente em digital.
Filmes recentes como “Vies”, de Alain Cavalier, “Lúcia e o Sexo”, de Julio
Medem e o inédito curta-metragem “O Papa da Pulp”, me dão a certeza de que
não é o suporte e a bitola de um projeto que inibem a criatividade. Não
tenha dúvida de que muitos dos meus projetos de filmes pessoais só serão
possíveis com a adoção da câmera numérica.
Você poderia falar da influência da leitura em seu processo de criação?
Reichenbach: Minha formação é essencialmente literária, já que sou filho,
neto e sobrinho de editores. O que me aproximou do cinema, ainda aos onze
anos, foi o roteiro cinematográfico. Nesta época, assisti a uma leitura do
roteiro de “Jovita”, adaptação fílmica (do falecido cineasta Oswaldo
Sampaio) de uma novela de Dinah Silveira de Queiroz, publicada em
capítulos na revista “Lady”, que era editada pelo meu pai.
Fui um “rato de biblioteca” muito precoce. Aos nove anos, ao invés de
Dumas e Stevenson, eu lia Somerset Maughan e John Steinbeck, Aos treze, me
apaixonei pelos europeus e os naturalistas nativos (que estimulavam
algumas práticas solitárias típicas da idade). Meus amigos não entendiam
como eu conseguia me excitar com livros sem ilustração. Na seqüência veio
a fase dos latino-americanos, depois dos filósofos e, finalmente, aos 16 e
17 anos, as cartilhas políticas.
Curiosamente, poucos livros me incitaram a vê-los passados para a tela.
Uma rara exceção foi o quase subestimado “O Agressor”, de Rosário Fusco.
Quando fui atrás dos direitos autorais do escritor mineiro, descobri com
espanto e encantamento (o que serviu para lavar meu ego por meses
seguidos) que os respectivos direitos de adaptação fílmica haviam sido
adquiridos, na Itália, nos anos 50, por ninguém menos do que Orson Welles!
Outro autor brasileiro que senti vontade de filmar foi Campos de Carvalho.
Cheguei a vislumbrar “O Púcaro Búlgaro” sendo rodado com produção da
Boca-do-Lixo; afinal a estratosférica e hilariante saga de Carvalho se
passa inteirinha em uma única locação: um apartamento de quarto-e-sala.
No mais, desisti muito cedo de fazer filmes com matéria-prima de
terceiros. Acho que, no fundo, eu sempre quis mesmo é ser escritor. Espero
me aposentar do cinema daqui a dez anos, ir morar em Dois Córregos e
dedicar o resto dos meus dias à prosa literária.
Você chegou a dizer que faz filmes para colocar música. Qual a importância
da música para seu cinema e que papel ela desempenha em seus novos filmes?
Reichenbach: Só para constar como curiosidade: paguei os dois anos da
minha permanência na extinta Escola Superior de Cinema São Luiz (o
primeiro curso de cinema, de nível universitário, que foi criado em São
Paulo, em 65) com a grana que recebia como tecladista do TNT Trio. A
música e a literatura sempre estiveram associadas ao meu desejo de fazer
filmes.
Costumo enxergar a música como personagem fundamental da minha
dramaturgia. Gravo 80% das músicas que irão aparecer em meus filmes com
antecedência, porque eu as utilizo como play-back na hora da filmagem. Se
não uso a música definitiva, trabalho sempre com referências.
Neste exato momento, o maestro Nelson Ayres (autor da trilha original de
“Aurélia Schwarzenêga”) deve estar arrancando os cabelos para “traduzir”
(a seu modo) os trechos de “Alexander Nevski”, de Prokofiev, que eu usei
como referência para o discurso “spengleriano” de Salesiano de Carvalho,
personagem fascistóide interpretado brilhantemente por Selton Mello. Logo
vou me encontrar com Ivan Lins para falarmos sobre os dois temas musicais
centrais de “Bens Confiscados”, que serão gravados antes das filmagens.
Pretendo voltar a compor músicas para um dos meus futuros projetos, como
fiz em “Alma Corsária”. Tenho o desejo de um dia realizar um filme
semimusical, em que os atores irão interpretar como se estivessem
dançando. Fiz esta experiência em “Lilian M.”, em 1974, na seqüência em
que desponta o personagem de Hartman, um ex-nazista que financia o aparato
da tortura no Brasil. Confesso que esta é uma das seqüências que mais me
dão orgulho de ter filmado até hoje.
Para o futuro projeto semimusical, inclusive, as músicas já estão prontas.
Quando vou realizá-lo? Não tenho a mínima idéia. Conversei com Luciana
Brittes, que assina a coreografia de “Aurélia Schwarzenêga”, sobre a
possibilidade de passar o projeto à frente de outros já em processo, mas
sinto que as dificuldades em levantar o dinheiro para financiá-lo serão
enormes.
Quais são os filmes lhe impressionaram recentemente?
Reichenbach: Sem dúvida, “Cidade das Ilusões”, de David Lynch, foi a
melhor coisa que poderia ter acontecido ao cinema contemporâneo, pois
devolveu à arte do cinema o privilégio da imaginação. Outros filmes
recentes, como “Lúcia e o Sexo”, de Júlio Medem, e “Água Quente Sobre a
Ponte Vermelha”, de Shohei Imamura, são antídotos contra a mesmice.
Por conta da exaustiva pesquisa que venho empreendendo para o futuro
documentário, tenho lixado as cabeças dos meus dois aparelhos de
videocassete com toda a espécie de fita vagabunda. Entre as sandices
encontradas nesta prospecção, destaco “Go Fuck Yourself”: autofagia, via
esfíncter, ao vivo e a cores. Aguardo, com frio na espinha, a encomenda
que fiz de dois filmes de Lizzie Borden, uma maluca que adora filmar
canibalismo explícito.
Fica difícil falar em cinefilia responsável diante de tudo que tenho visto
ultimamente. Certo. Tenho entupido meus olhos com imagens desprezíveis. No
entanto, descobri neste exercício quase diário de tolerância uma espécie
de ascese, de estímulo a concepção de filmes livres e magníficos que
invistam no melhor da essência humana.
Em seus filmes, você sempre combinou inquietação estética e artística com
insubordinação existencial e libertária, a audácia da forma e a anarquia
do desejo, a alma corsária e os sonhos de vida. Qual a função ou missão do
cinema? O que significa para você, hoje, fazer cinema?
Reichenbach: Gosto de enxergar o cinema como minha manifestação de vida.
Busco em todos os filmes que assisto entender a pessoa que o fez. Continuo
um ardente e radical defensor do cinema autoral. Desprezo todo e qualquer
filme que esconda a alma do seu realizador.
Não acredito em indústria cinematográfica; pelo menos, em países
subdesenvolvidos como o Brasil. Aqui, que me perdoem os conformistas,
cinema é -e tem de ser sempre- cultura de ponta. O país precisa do cinema
para não perder a memória e os valores culturais mais preciosos. No mais,
danem-se todos os responsáveis pelo audiovisual descartável.
Carlos Adriano (o entrevistador)
É mestre em cinema pela USP e realizador dos filmes “A Voz e O Vazio: A
Vez de Vassourinha” (placa de ouro de melhor documentário no Festival de
Chicago) e “Remanescências” (aquisição/coleção The New York Public Library),
entre outros.
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