ALMA CORSÁRIA no site da DEZENOVE

 

1993
escrito, fotografado e dirigido

por CARLOS REICHENBACH
 

diretor assistente EDUARDO AGUILAR
diretor de arte RENATO THEOBALDO
cenografia HENRIQUE LANFRANCHI
figurinos ANDRÉIA CAMARGO
coreografia CLARISSE ABUJAMRA
música original CARLOS REICHENBACH
montagem e edição CRISTINA AMARAL
produtora SARA SILVEIRA
produtores
DEZENOVE SOM E IMAGENS
DONALD RANVAUD
SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA DE SÃO PAULO
MOVIECENTER CINEMATOGRÁFICA
JOSÉ EDUARDO MENDES CAMARGO
 

elenco
BERTRAND DUARTE (1), JANDIR FERRARI (2), ANDRÉA RICHA (3), FLÔR (4), MARIANA DE MORAES (5), JORGE FERNANDO (6), EMILIO DI BIASI (7), ABRAHÃO FARC (8), ROBERTO MIRANDA (9), RICARDO PETTINE (10), PAULO MARRAFÃO (11), DAVID Y POND (12), AMAZILES ALMEIDA (13), ROSANA SELIGMANN (14),
apresentando os meninos ANDRÉ MESSIAS (15) e DENIS PERES (16),
participação do maestro e pianista JOAQUIM PAULO DO ESPÍRITO SANTO (17),
atores convidados
WALTER FORSTER (18), CHRISTIANE COUTO (19) e BRUNO DE ANDRÉ (20)
participação especial de
CAROLINA FERRAZ (21)

 

Local das Filmagens: São Paulo, Iguape e Dois Córregos.


Lançamento São Paulo: Dia 15 de Abril de 1994, no Espaço Banco Nacional (Sala 2), e no cine Olido 3.


BRASIL, 1993, 35mm, COLOR, 116'

 

 

 

 

 

 

 

BUCCANEER SOUL (Alma Corsária)
A opinião da Crítica Estrangeira


One of Brazil's Cinema Novo's guiding spirits, Carlos Reichenbach, directs this fascinating look at Brazilian love through literature, cinema and music in the story of two friends living through the chaotic 1960s. "One of the most interesting and creative Brazilian filmmakers"
(Jonathan Rosenbaum, Chicago Reader)


This Brazilian film by auteur Carlos Reichenbach offers a lush, at times surreal, collage that pays tribute to the arts and presents his personal experiences and political insights as it examines the youthful memories of two close friends. Torres and Xavier are old friends who have recently published a volume of poetry. Their celebration in a rundown pastry bar becomes the framework for their reminiscences. The story frequently jumps from past to present. Their friendship began in 1957. They next remember the 60's where they discovered loving and shared a passion for movies. In the present, Anesia, a prostitute arrives and causes Torres to remember the time her pimp forced him to play her date as she visited her parents.
(Sandra Brennan, All Movie Guide)
 

Summary: This film is a masterpiece of the modern cinema. Released on video in the United States as Buccanner Soul, this film is a remarkable achievement comparable to the best work of Jean Luc-Godard, Agnes Varda, Chris Marker, Raul Ruiz and Tomas Guiterrez Alea. It is a shame that this film has had such little fanfare in the United States and surely a sign of the bleak times for foreign films that are really rooted to a specific time and place. Above all this is a BRAZILIAN film, capturing a great sense of the energetic, revolutionary, tragic modern history of Brazil. This is not a traditional narrative film, but, a fractured narrative that jumps through space and time exploring the deeply felt friendship of men from boyhood to middle age. The film transcends the normal limitations of buddy movies by having the two friends lives enriched (rather than threatened by a host of other characters male and female, young and old, gay and straight). The film is also not afraid to confront the natural attraction (emotional and sexual) between boys and men who classify themselves heterosexual. This is really a beautiful and rewarding film on so many levels (politically, in terms of fractured narrative strategies, and formally). Find this film on video if you can and rent it. You will not be disappointed.
(IMDB - Rigor / Chicago, USA / Date: 6 June 1999)

sinopse
 Rivaldo Torres (1) e Teodoro Xavier (2), amigos de infância, lançam o livro "Sentimento Ocidental ", poesia em prosa à quatro mãos, na Pastelaria Espiritual.
 Para espanto de Magalhães (6), executivo da Editora Epopéia, e de sua virginal noiva Verinha (4), os poetas convidam a mais variada fauna humana para o evento, incluindo um Suicida (8) em potencial, salvo por Torres no Viaduto do Chá.
 Enquanto a festa avança, o filme recua até o final da década de 50, flagrando a gênese da amizade dos dois protagonistas.
 Jabaquara, São Paulo, 1957. Torres (15), o garoto pobre e bastardo, introduz o novo e rico amigo Xavier (16), no universo do ascendente bairro classe média-baixa. Por sua vez Xavier tenta despertar a curiosidade intelectual do amigo.
 Em 1959, Torres é obrigado a se mudar para Iguape, litoral sul de São Paulo. Lá, a solidão faz com que ele amadureça com certa amargura. Já adolescente, e numa de suas visitas, Xavier (2) viaja para Iguape com o conjunto musical do qual é líder, para uma apresentação beneficente. Torres (1), incentivado pelo outro, tem sua primeira experiência física e sentimental com a jovem e sensual Olga (13).
 Na Pastelaria, o movimento agora é intenso. Torres fica feliz com a chegada da doce e sofrida prostituta Anésia (3).
Dois Córregos, interior do Estado, 1976. Torres viaja com Anésia e se faz passar por seu noivo perante o pai da jovem (7). Em meio à farsa, os dois acabam descobrindo um sentimento sincero de respeito e amizade, quase amor.
 Pastelaria: a festa se torna um verdadeiro happening. Um metalúrgico desempregado (17) executa um concerto de piano. Todos viajam embalados pela música de Debussy. O encanto é quebrado pela introdução da bateria do grupo musical que irá animar o baile dos poetas. O humor se torna freqüente nas figuras de Magalhães, do Suicida e de outros convidados bem trapalhões. Surge o Profeta (9), remetendo o filme às memórias do bairro do Glicério em São Paulo.
 Glicério, 68 / 69 : o aprendizado político, a vigem lisérgica e contra-cultural de Torres e Xavier. O reencontro com o esquerdista festivo Oscar (11), e o fugaz romance com a linda ativista Eliana (5), a musa definitiva de Torres. Uma paixão tão breve quanto traumática.
 Pastelaria: fim de festa. Verinha embriagada, perde a compostura. O Suicida tenta tirar sua "casquinha". Magalhães, louco de ciúmes, é afastado do local. Xavier, cavalheiro, parte com a noiva do editor. Um anjo (21) em forma de mulher surge à procura de Torres. Sua beleza não é humana, mas é familiar ao poeta. Quando anjo e poeta ameaçam partir, o Suicida tenta acompanhá-los, mas é dissuadido.
 Torres, finalmente, abraça o seu destino.

comentário
 A idéia deste projeto nasceu no início dos anos 8O com o nome de Alma Gêmea. Originalmente, o argumento narrava a história de uma amizade entre dois poetas urbanos, inspirando-se diretamente na sintonia visionária que uniu o poeta português Cesário Verde e o brasileiro Augusto dos Anjos. Apesar de viverem em época diferentes e em países distantes, ambos eram apaixonados por sua cidade natal, que tão bem conheciam em suas caminhadas noturnas e erráticas, sofreram as agruras da hemoptise e tinham fixação pela morte. Estes aspectos foram mantidos no roteiro reescrito em 92, e acrescentados com dados autobiográficos de Reichenbach. Alguns dos personagens foram diretamente inspirados em seus amigos de infância e juventude. Os dois protagonistas vivem experiências idênticas às do autor, e ambos possuem características suas. Refletir sobre as transformações socioeconômicas que ocorreram no país durante três décadas, através da formação cultural, política e existencial dos personagens, fazia parte integrante do primeiro tratamento. Com o acréscimo de novas situações e novos personagens no roteiro final, Reichenbach foi obrigado à optar por centrar a ação em Rivaldo Torres. Incidentes na vida, e sobretudo, as aventuras afetivas de Xavier foram sumariamente excluídas do filme. O argumento foi premiado em 1993 pela Secretaria de Estado da Cultura do Governo de São Paulo. E como a época não favorecia a produção de filmes do gênero intimista e confessional, o projeto foi esquecido nas gavetas do realizador. Na verdade, pouco depois de ter concluído o primeiro tratamento, Reichenbach considerou-o datado. Dez anos depois, Eduardo Aguilar, assistente de direção e continuísta em vários de seus filmes, parceiro de cinefilia, convenceu o amigo da pertinência e atemporalidade do projeto.
 Após Desordem e Progresso, com a inovadora mas desgastante experiência empresarial da Casa de Imagens Cinema e Vídeo Ltda. (vítima da política econômica e cultural do desastroso governo Collor), e desencantado com os rumos do cinema no início da década, Reichenbach pensou seriamente em abandonar a profissão. Durante dois anos, dedicou-se quase exclusivamente aos estudos de arranjo e composição musical com o experimentalista Wilson Sukorski. Isso foi fundamental para a retomada do projeto Alma Gêmea. No tratamento final, a música foi gradativamente se tornando personagem integrante da narrativa. Metade da trilha sonora foi composta e gravada antes das filmagens, e várias seqüências foram rodadas usando as músicas de Reichenbach como play-back e parâmetro para a atmosfera da ação e duração das cenas.
 Alma Corsária é resultado da união de Reichenbach com a diretora de produção Sara Silveira, sua colaboradora desde Filme Demência. Os dois fundaram a empresa Dezenove Som e Imagens, e como próprio nome sugere, pensando em cinema e música. No início, a intenção era montar primeiro um pequeno set-up de música digital, mas o projeto foi temporariamente abandonado quando a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, na gestão Luísa Erundina / Marilena Chauí lançou o Prêmio de Incentivo ao Cinema. Obviamente, a vontade de fazer filmes falou mais alto, e o projeto antes engavetado acabou sendo contemplado com o financiamento.
 Foram dois anos de trabalho árduo para concluir Alma Corsária, com dedicação full time de seus produtores e da montadora Cristina Amaral. Vítima da brutal desvalorização da moeda durante esse período, a Dezenove Som e Imagens foi obrigada a buscar mais recursos financeiros para concluir o filme. O Polo de Cinema e Vídeo do Distrito Federal, o Banco de Brasília, a Secretaria para o Desenvolvimento AudiovIsual (órgão ligado ao Ministério da Cultura), concederam recursos que permitirem o filme ser terminado. O produtor inglês Donald Ranvaud, amigo de Reichenbach, interessou-se pelo projeto e pagou a sua sonorização em Dolby Stereo, ficando com a distribuição internacional.
 Alma Corsária é uma ode à amizade e o mais afetivo dos filmes de Reichenbach. Consolidação de uma dramaturgia voltada às pessoas comuns e que vivem à margem do sistema. Não é o que os dois poetas escrevem que interessa ao autor, mas os motivos que os levam à escrever poesia. Nada de excepcional acontece em suas vidas; mas é o encanto da rotina incomum, os pequenos incidentes triviais, os atos de iniciação e os momentos de introspecção e devaneio que fazem a poética do cotidiano. De certa maneira, um filme zen, que busca valorizar aquilo que parece prosaico demais para quem está distante, e deflagrador e capital para quem o vivencia : a primeira decepção amorosa, a perda do pai, o primeiro emprego, a primeira transa sexual, as visões da morte, a formação política por convivência e " orelhada ", a viajem ao campo como representação da uma descoberta afetiva e suas conseqüências - aliás, as seqüências em Dois Córregos são as preferidas de Reichenbach ("o entendimento mudo entre o pai, a filha prostituta e o falso noivo, a charrete como símbolo atemporal da graça provinciana estranha ao poeta urbano, o diálogo versejado entre o velho louco, caolho e paraplégico e o herói bastardo, a comunhão familiar que exclui qualquer cobrança à filha pródiga, a viajem provisória que tanta paz transmite ao solitário Torres e que o faz flertar com o anjo da morte, os beijos roubados no interior do trem, a amizade profunda entre dois seres fragilizados transfigurando-se em ternura, a dança que os aproxima e dá dignidade às suas solidões") - a confraternização geral na pastelaria, a amizade que se estabelece entre o Suicida e China (12), o primeiro apartamento do herói virado "aparelho", a relação impossível com a jovem revolucionária, sua única musa, o aprendizado forçado e irreversível de responsabilidade social, as amizades do peito e suas cobranças naturais, e finalmente, o encontro das almas gêmeas em outras esferas e a morte como benção e êxtase maior do poeta.
 Alma Corsária teve sua primeira cópia exibida no Festival de Brasília de 1993, dois dias após ter saído do laboratório. Acabou ganhando vários prêmios, inclusive o de melhor filme. Recebeu também prêmios como melhor filme lançado comercialmente em 1994, e representou o Brasil no 30º Festival do Novo Cinema de Pésaro (Itália), onde ganhou o Prêmio dos Trinta Anos. Vale lembrar que o primeiro filme brasileiro à receber um prêmio em Pésaro, há trinta anos atrás, foi justamente São Paulo Sociedade Anônima de Luiz Sérgio Person; professor, mentor profissional, e primeiro produtor de Reichenbach.

Prêmio Internacional
30th Pesaro Film Festival - "Prêmio del Trentennale" (Melhor Filme)

Premiações

26° Festival de Brasília - Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Melhor Montagem
Prêmio APCA - Melhor Filme de 1994
Festival de Cuiabá 1994 - Melhor Ator (Bertrand Duarte) e Melhor Música Original
Prêmio SESC "Os Melhores Do Ano" - Melhor Filme e Melhor Diretor (Prêmio dos Críticos)
Votado pela Associação dos Críticos do Rio de Janeiro como um dos melhores filmes de 1994.
Prêmio Cidade de São Paulo - Melhor Filme Brasileiro de 1990 a 1994 e Melhor Roteiro (Carlos Reichenbach)

Festivais Internacionais
Pesaro, London, Miami, Chicago Latino, Montevideo, London Latino, Tübbigen, etc.