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1999
escrito e dirigido por CARLOS REICHENBACH
produtora SARA SILVEIRA
uma co-produção
DEZENOVE SOM E IMAGENS
TV
CULTURA
FUNDAÇÃO PADRE ANCHIETA
produtora executiva MARIA IONESCU
diretores de produção CAIO GULLANE e FABIANO GULLANE
diretor de fotografia PEDRO FARKAS
operador de câmera PEDRO IONESCU
montagem CRISTINA AMARAL
som direto GABRIEL COLL e PEDRO MEJIA
editor de som EDUARDO SANTOS MENDES
mixagem JOSÉ LUIZ SASSO
preparação das atrizes FÁTIMA TOLEDO
produtora de elenco VIVIAN GOLOMBEK
assistentes de Direção DANIEL CHAIA e SERGIO CONCÍLIO
diretor de arte LUÍS ROSSI
figurinos ANDRÉA VELLOSO
música original IVAN LINS
arranjos e produção musical NELSON AYRES
elenco
CARLOS ALBERTO RICCELLI (Hermes),
BETH GOULART (Ana Paula - adulta),
INGRA LIBERATO (Tereza),
VANESSA GOULART (Ana Paula - jovem),
LUCIANA BRASIL (Lydia),
KAIO CÉSAR (Sargento Percival),
LUIZ DAMASCENO (advogado),
THOMAZ VINÍCIUS JORGE (Pimpolho),
SERGIO FERRARA (Oficial de Justiça),
ANTOUNE NAHKLE (Motorista Cláudio),
CRISTINA CAVALCANTI (Tânia),
LINA AGIFU (Mulher de Percival), ZÉ
DA ILHA (José),
INGRID SILVEIRA e
IGOR SILVEIRA (filhos de Hermes),
PAULO MENDES (Toninho),
JAQUELINE JORGE (Mãe de Pimpolho),
FRANCISCO CESTARI (Sr. Tenório),
SEBASTIÃO MANOEL DE ABREU (Pai de Pimpolho),
MAURITY FORNAZARO (Instrutor de Armas),
JOANA CURVO,
RITA MARTINS,
FABIANA BARBOSA,
DÉIA BRITO,
SÉRGIO CAVALCANTE,
MAURÍLIO TADDEU, MARCELO ARAÚJO,
JOSÉ JERÔNIMO e
ANDRÉ MÜRRER (Guerrilheiros).
filmado nas cidades de
DOIS CÓRREGOS
ESTADO DE SÃO PAULO
e
CIDREIRA
ESTADO DO RIO GRANDE DO
SUL
Lançamento São Paulo:
BRASIL, 1999, 35mm, COLOR, 112'





DOIS CÓRREGOS
Premiações
52o Festival
Internazionale del Film Locarno
Representante Oficial do
Brasil na Mostra Competitiva
III Festival Luso
Brasileiro Santa Maria da Feira
Prêmio de Melhor Atriz
para Ingra Liberato
Festival de Natal 1999
Melhor Filme (Júri
Oficial)
Melhor Atriz Coadjuvante
(Luciana Brasil)
Melhor Trilha Sonora
(Ivan Lins)
Melhor Fotografia (Melhor
Fotografia)
7o Festival de Cinema e
Vídeo de Cuiabá
Prêmio de Melhor Filme
(Júri Popular)
Melhor Diretor (Carlos
Reichenbach)
Melhor Atriz (Ingra
Liberato)
Prêmio SESC "Os Melhores
Do Ano"
Melhor Filme (Júri
Popular)
Melhor Diretor (Prêmio
dos Críticos)
Prêmio APCA (Associação
Paulista dos Críticos de Arte)
Melhor Diretor (Carlos
Reichenbach)
Grande Prêmio Cinema
Brasil
Melhor Roteiro (Carlos
Reichenbach)
Ivan Lins Scores Latin Grammy Nomination
Ivan Lins has been nominated for Best Pop Instrumental Performance for Dois Corregos - a track from Dois Corregos: Trilha Sonora do filme de Carlos
Reichenbach. |
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sinopse
1997 - Ana Paula (2), 46
anos, vai ao interior de São Paulo recuperar a casa de campo que herdou
dos pais, falecidos recentemente, e que está ocupada por grileiros.
Constrangida com a indiferença de seu advogado, e com a rispidez da ação
policial, lembra a última vez que ali esteve.
1969 - A adolescente Ana
Paula traz a colega de escola Lydia, precoce e exímia pianista, para
conhecer o seu reduto no " Encontro Dos Rios ". Elas passam quatro dias na
companhia de Tereza - empregada de confiança, meio pajem e irmã de criação
de Ana - e Hermes, o tio que sempre viveu no Rio Grande do Sul e que Ana
Paula vê pela primeira vez. Ela descobre que o tio tem problemas com a
polícia política, que passou dois anos em países sul-americanos envolvido
com grupos ativistas de extrema esquerda, que está escondido na casa de
campo da irmã mais velha tentando oficializar sua volta ao país; e por
isso é forçado a permanecer longe da esposa e dos dois filhos pequenos.
Jovem e imatura, alienada do que está acontecendo no país, Ana não entende
as razões que fizeram o tio separar-se da família. Com Lydia o
entendimento ainda é mais difícil; ela é filha de militar de alta patente,
tendo assimilado por completo todos os preconceitos paternos com relação
aos ativistas. No entanto, seus olhos tristes e sua beleza austera e
clássica, que tanto lembra a esposa de Hermes quando jovem e acima de tudo
a sintonia através da música clássica, que Hermes conhece e admira
profundamente, acabam encurtando as distâncias. A efêmera convivência das
duas ingênuas adolescentes com o angustiado, taciturno, culto e belo
clandestino, transforma aquele feriado em um momento capital de suas
existências; quase um "rito de passagem". Enquanto descobrem o que está
realmente acontecendo no país, despertam para sensações ainda submersas
como sensualidade, afeto e melancolia. Uma lição de vida também para
Tereza, aos 26 anos, e a fugaz descoberta da possibilidade da afeição
íntegra, do prazer físico, da entrega absoluta e do amor sem cobranças. Um
incidente envolvendo um quinto personagem, o tenente Percival, namorado de
Tereza, encerra a curta temporada no local paradisíaco, e ocasiona o
súbito e desconcertante desaparecimento de Hermes.
1997 - Vinte e oito anos
depois, Ana Paula soluciona o mistério que envolveu o destino da primeira
paixão platônica de sua vida, do homem que amou em segredo durante muitos
anos e, de maneira surpreendente, resolve suas diferenças com o passado.
CONSIDERAÇÕES
1.
DOIS CÓRREGOS é um drama
intimista que narra o "rito de passagem" de duas adolescentes em 1969.
Assim como “ALMA CORSÁRIA”, foi inspirado em fatos acontecidos comigo
quando adolescente e na convivência com meu padrinho de batismo, durante o
período em que ele ficou clandestino numa casa à beira da represa Billings
da minha família. Tanto ALMA CORSÁRIA quanto DOIS CÓRREGOS são filmes que
tentam se aproximar da música. Comparando os dois filmes, eu penso que
ALMA CORSÁRIA (como definiu o crítico italiano Roberto Silvestre) é
Skriabin (mistura de gêneros, por vezes caótico, quase dodecafônico) e
DOIS CÓRREGOS é Cesar Franck (atmosférico, melancólico e impressionista).
Vistos através de sua inspiração poética, ALMA CORSÁRIA é Augusto dos
Anjos; DOIS CÓRREGOS é Murilo Mendes. Por outro lado, DOIS CÓRREGOS é mais
político que meu filme anterior, já que seu eixo central é a história de
um processo de desalienação e de recuperação de idemtidade. Apesar do tema
político entrar "pela porta dos fundos", a inspiração destes projetos
sempre foi essencialmente poética. São as relações humanas que me
interessam. Se uma frase pudesse servir de síntese da história, eu
utilizaria o diálogo final de DOIS DESTINOS (Cronaca Familiare – de
Zurlini – meu filme de cabeceira): "Afortunados os pobres de espírito
porque nunca conheceram nem a renúncia, nem a transgressão."
2.
Oitenta e cinco por
cento do filme se passa na cidade de Dois Córregos, em dois tempos
diferentes: hoje e 1969. Dez por cento será filmado em Cidreira, litoral
sul do R. G. do Sul, cidade onde vivem os filhos do personagem Hermes. E,
finalmente, uma locação imaginária (talvez, a serra da Cantareira), que
mostram em flash-back "o aprendizado" de Hermes num país da America Latina
(?). As cenas de "vestibular da luta armada" foram filmadas em Super 8 e
em branco e preto, e posteriormente ampliadas para 35 mm nos Estados
Unidos.
3.
Esse filme, como a
maioria dos meus filmes, tem uma relação especial com a música. Isso não
acontece por acaso, afinal eu estudei música. A trilha do Ivan Lins é
fantástica e age como um personagem do filme. Os arranjos do maestro
Nélson Aires são deslumbrantes. Eu sou contra o uso da trilha sonora para
tapar buracos na trama, ou simplesmente como enfeite. Ela tem de ser
atuante. A cena da relação entre Ricelli e Ingra Liberato, simplesmente
não existiria sem a música. Por isso escolhi para protagonizar Lídia, a
virtuose que é filha de militar, Luciana Brasil, uma pianista de verdade.
As músicas de César Frank, Ferrucio Busoni e, sobretudo, os enigmáticos e
complexos temas e prelúdios de Alexander Skriabin atuam na ação dialogando
dramaticamente com as imagens. A atmosfera da sequência em que Lídia
executa "Flammes Sombres", de Skriabin, toda construída ao cair da noite,
é para mim um dos pontos altos do filme porque remete a Val Lewton - o
"inventor" da sugestão no cinema.
Entre a Renúncia e a
Transgressão
por Carlos Reichenbach
Foi em 1960, algumas semanas após a morte de meu pai, que conheci a cidade
de Dois Córregos, no interior de São Paulo. Estudava em um colégio interno
em Rio Claro e um colega me convidou para conhecer sua cidade natal.
Lembro o impacto provocado pela visão da estação de trem local, uma
reprodução fiel, obviamente reduzida, da estação de Marselha, França.
Estação de trens e plataformas marítimas são imagens recorrentes em meus
filmes. Como metáforas da percepção de perda, foram as primeiras obsessões
imagéticas que me aproximaram do cineasta italiano Valério Zurlini.
Zurlini e Dois Córregos, gênese de meu décimo segundo longa metragem.
Desde "O Paraíso Proibido", cujo personagem interpretado pelo ator Jonas
Bloch é um duplo do Alain Delon de "A Primeira Noite Da Tranqüilidade",
venho perseguindo exaustivamente a atmosfera desencantada e existencial,
os tempos - de um quarteto de cordas - e os desfechos submetidos ao
inexorável que tanto caracterizam o cinema de sentimentos de Zurlini.
Escrevi e filmei "Dois Córregos" tendo como fonte inspiradora a cópia em
vídeo de "A Moça Com a Valise", presente do amigo e escritor Márcio De
Souza. Mas, após ver a cópia final pela terceira vez, descubro estarrecido
que meu dé com o filme anterior de Zurlini, o também extraordinário "Verão
Violento" ("State Violenta").
Poucos filmes na história do cinema mostraram de maneira tão intensa e
poética o momento histórico e a realidade política invadindo o cotidiano
sentimental das pessoas.
Assim como Zurlini também me interesso pelos personagens masculinos à
deriva, à esquerda da esquerda, subversivos por sua generosidade obscena e
que almejam uma - ordem sem coação - em sua fé irrestrita na utopia.
Incompreendidos em seu tempo e fragilizados ao máximo, busco trabalhar
estes - sem a complacência e a afetividade dos meus personagens femininos.
Em "Dois Córregos", entre a transgressão de Hermes e a renúncia de Tereza,
trafegam a geração do acordo MEC-USAID (Ana Paula e Lydia) e marionetes do
AI-5.
Busquei centralizar a ação dramática no trivial do convívio entre um homem
maduro e angustiado com duas jovens imaturas e uma mulher carente,
inspirando-me diretamente nos dolorosos dias em que meu padrinho de
batismo passou escondido na casa de campo que meus pais tinham à beira da
represa Billings. O expediente de trocar o sexo das adolescentes e a opção
pela tônica romântica, à diferença do real, buscou acentuar a idéia de
rito de passagem e de um processo de desalienação. Mas foi à partir de uma
imagem, que me marcou profundamente na puberdade, que o filme começou a
existir no papel e no celulóide: alguém escreve cartas para os filhos,
justificando seus atos para si mesmo, mas não consegue enviar ...
Mais uma vez a música é personagem fundamental de meus filmes. É ela que
possibilita existir o entendimento entre personagens antagônicos. Foi um
privilégio trabalhar com Ivan Lins e Nélson Ayres. Como costumo filmar com
play-back, usando músicas conhecidas como referência, o desafio ao
compositor e ao arranjador foi se aproximar ao máximo da sugestão
preciosas as versões pessoalíssimas trabalhadas à partir de Joe Cocker ("You
Are So Beatiful") no tema da cena de amor e no John Lennon póstumo ("Free
As A Byrd") na seqüência da chuva.
Sob a tônica musical, "Dois Córregos se inspira em César Franck pela busca
de uma atmosfera melancólica e impressionista. Assumidamente um filme
triste, como as felicidades efêmeras, mas evitando a todo custo a sedução
da chantagem.
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