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filmado em novembro e dezembro de 2006

concluído em outubro de 2007

lançamento: abril de 2008

 

 

Fotos de cena - Luciana Benaduce Figueiredo

 

 

 

 

 

 

 

DEPOIMENTO DO DIRETOR
- publicado no blog REDUTO DO COMODORO 2006

em 09/12/2006 -

FALSA LOURA - FIM DAS FILMAGENS
SALVE ROSANNE MULHOLLAND!


 Ontem, dia 08 de dezembro, em uma feira da Vila Maria, foram encerradas as filmagens de FALSA LOURA.
 O editor deste blog agradece o empenho fenomenal da equipe que conduziu com garbo e dedicação as cinco semanas e meio de intenso trabalho de um filme que havia sido previsto inicialmente para sete semanas.
 No entanto, o editor gostaria de fazer um agradecimento especial a atriz Rosanne Mulholland por seu talento, sensibilidade e disciplina; em momento algum, mesmo em condições adversas, eu ouvi dela a mínima reclamação ou qualquer pequeno desabafo de desagravo. Confesso que por conta dos doze remédios diários que sou obrigado a tomar, minha paciência e meu humor não são os mesmos de dez anos atrás; mesmo assim, continuo a gostar de trabalhar dando risada, falando besteira o tempo inteiro e só me preocupar com o que está sendo filmado naquele momento. Me irrita profundamente ouvir gente reclamando nas minhas costas, ser interrompido com problemas de produção antecipados e ver gente discutindo do meu lado. Sei que existem atores que rendem mais com berro nos ouvidos, sendo humilhados e ofendidos; ou pior, existem aqueles que estão sempre prontos a participar como co-roteiristas e achem ótimo modificarem a bel prazer os diálogos que levamos meses ou anos para escrever. Eu fujo desta raça como o diabo da cruz. Com Ênio Gonçalves, Vanessa Alves, Emílio di Biasi e Bertrand Duarte aprendi que dos atores o diretor não deve esperar palpites, mas subsídios. O ator ideal é essencialmente um cúmplice, nunca um crítico pentelho ou um advogado do diabo. Até FILME DEMÊNCIA eu achava que câmera resolvia tudo, inclusive encobrir atuações deficientes. Em um antigo filme me vinguei de um ator chato colocando-o de costas em suas cenas mais importantes. Hoje não faria mais isso, simplesmente o substituiria por outro mesmo que tivesse gasto latas de negativo. O calvário que foram as filmagens de FILME DEMÊNCIA e a dedicação e entrega de seus protagonistas me ensinaram que a coisa que mais importa no momento da filmagem é quem está à frente das câmeras, que o ator é o cerne do filme e que é preciso estabelecer prioritariamente um pacto de mútua confiança entre ator/diretor tendo o próprio filme como único foco da relação. Rosanne é da rara estirpe de intérpretes magistrais e instintivos que se colocam inteiramente à disposição do filme que estão fazendo. Uma atriz perfeita para Martin Scorsese, Valério Zurlini, Kenji Mizogushi e Luis Sérgio Person. Eu a recomendaria imediatamente a qualquer diretor que procure no intérprete um interlocutor que literalmente "vista a camisa" do filme.
 Em resumo, Rosanne Mulholland é a anima e o sangue de FALSA LOURA e ponto!

CARLOS REICHENBACH


Página do filme do Festival de Fribourg (Suiça).


Dezenove Som e Imagens apresenta

FALSA LOURA


Sinopse - Silmara, uma operária especializada de exuberante beleza, que sustenta o pai incendiário, se envolve com dois mitos diferentes da música popular e com cada um deles irá experimentar traumáticas lições de vida.

Comentário - Em FALSA LOURA, Reichenbach mergulha novamente no universo das mulheres proletárias e classe média brasileiras, no ambiente de trabalho e no tempo livre, tendo a cidade de São Paulo como cenário e personagem. As semelhanças com "Lílian M.", "Amor, Palavra Prostituta", "Anjos do Arrabalde" e "Garotas do ABC" terminam no aspecto social e econômico abordado. Neste filme o olhar do diretor se torna menos condescendente com a ingenuidade de sua protagonista. De certa maneira, FALSA LOURA pode ser considerado o mais político dos "filmes femininos" do diretor.

Resumo Ampliado

 Operária especializada e competente, a bela Silmara (Rosanne Mulholland) sustenta o pai, Antero (João Bourbonnais), um ex-presidiário físicamente deformado pelo fogo e tenta a todo custo reatar relações amigáveis entre o pai e o irmão caçula, o cabelereiro Tê (Léo Áquila). Apesar de atrair e ser atraída pelos homens, Silmara mantém um ambíguo relacionamento com a professora de dança Regina (Luciana Brites). Silmara compensa a deprimente miséria familiar com um comportamento aparentemente agressivo, fútil e despachado. Na fábrica, ela é instada por sua melhor amiga, a também operária Luiza (Vanessa Prieto), a se tornar a "pigmalião" da tímida, desajeitada e solitária Briducha (Djin Sganzerla). Silmara, Briducha e a professora municipal Ligia (Maeve Jinkings), juntam suas economias para assistir o show do grupo "Bruno e seus Andrés", no Clube Alvorada. Ao se envolver emocionalmente com o ídolo Bruno de André (Cauã Reymond), Silmara passa a representar para suas amigas do trabalho a utópica possibilidade de rápida ascensão econômica e social e se torna um mito entre as colegas Milena (Suzana Alves), Valquíria (Priscila Dias), Fátima (Naruna Costa) e Rosecler (Ingrid Silveira). Somente Luiza, sua confidente, fica sabendo que Bruno a tratou como uma réles prostituta. Ao mesmo tempo, ela desconfia que o pai voltou a atividade de incendiário profissional. Apesar da brutal lição de desprezo com o ídolo pop, Silmara irá repetir o mesmo trajeto abissal quando, através da intermediação do poderoso advogado Dr. Vargas (o cineasta e jornalista Bruno de André), é contratada para passar um final de semana como acompanhante do maior cantor da música romântica brasileira, Luís Ronaldo (Maurício Mattar) e de seu filho Leonel (Emanuel Dórea).

Equipe Técnica
Roteiro e Direção - Carlos Reichenbach
Produtora - Sara Silveira
Produtora Executiva - Maria Ionescu
Diretor de Produção - Josmar Bueno Júnior
Fotografia - Jacob Sarmento Solitrenick (ABC)
Montagem - Cristina Amaral
Som Direto - Gabriela Cunha
Direção de Arte - Valdy Lopes Ferreira
Figurinista - Cássio Brasil
Diretor Assistente - Daniel Chaia
Produtora de Elenco - Vivian Golombek


Música Original e Arranjos - Nelson Ayres e Marcos Levy


Canções - Paulo Ricardo, Alexandre Leão, Isolda & Milton Carlos, Carlos Reichenbach e a TRUPE.

Elenco
Rosanne Mulholland, Cauã Reymond, Djin Sganzerla, João Bourbonnais, Léo Áquilla, Vanessa Prieto, Luciana Brites, Maeve Jinkings, Jiddu Pinheiro, Suzana Alves, Emanuel Dórea, Priscila Dias, Naruna Costa, Ingrid Silveira, Pedro Noizyman, Ádria Sandrade, André Guerreiro Lopes, Flávia Lorenzi, Renata Zhaneta, Daniela Christopher, Maurício Madruga, Isaac Ferreira, Júlio Machado e outros.

Participações especiais
Bertrand Duarte, Luiz Henrique, Bruno de André, Deivy Rose, Rogério de Moura e a banda TRUPE (Raoni Carneiro, Fran Landim, Du Françani, Pedro Altério e Gabriel Altério).

Ator convidado
Maurício Mattar, como Luís Ronaldo.

 

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE "FALSA LOURA", QUE SERÁ MOSTRADO PUBLICAMENTE, PELA PRIMEIRA VEZ, NO FESTIVAL DE BRASÍLIA, SÁBADO, DIA 24 DE NOVEMBRO

e sugeridas por entrevista a Ana Carolina Horta, da revista virtual BOCA A BOCA.

 FALSA LOURA é o quarto ou quinto filme que faço tendo como protagonistas mulheres proletárias ou da baixa classe média. Originalmente foi um dos quatro roteiros que escrevi, estimulado pela Bolsa Vitae, que buscavam retratar o meu imaginário a respeito da mulher operária. Durante dois anos, eu mergulhei no ambiente das tecelãs do ABC paulista. Todos os quatro roteiros partiam de uma premissa anarco-libertária de que o verdadeiro espaço de liberdade do proletariado é o tempo livre; de que o trabalho só tem sentido quando enxergado como prazer. A idéia inicial era filmar os quatro roteiros de uma só vez. Como só consegui filmar o primeiro deles “Aurélia Schwarzenega” (posteriormente batizado de GAROTAS DO ABC), resolvi fazer algumas mudanças substanciais no que seria o segundo filme da série ABC-CLUBE DEMOCRÁTICO. Mudei o nome das personagens, aboli a região do ABC e resolvi trabalhar com um elenco completamente novo para mim. O ambiente proletário e operário continuou o mesmo, embora em outra geografia. Mantive também a essência da narrativa dramática e a perspectiva política do projeto original. A escolha do elenco foi instintiva, já que aqueles rostos que eu enxergava na escritura do roteiro já possuíam personalidade própria. Rosanne Mulholland nem estava loura quando a vi pela primeira vez em A CONCEPÇÃO; mas havia uma tamanha determinação e atrevimento em seu olhar, que pedi para a Vivian Golombek, produtora de elenco, marcar uma entrevista com ela, em São Paulo. No caso, eu precisava de uma atriz que conseguisse imediatamente transmitir uma falsa impressão de excessiva auto-estima; uma certa arrogância em sua beleza trivial e agressiva. Silmara, a protagonista, foi construída como uma personagem que deveria revelar sua integridade e delicadeza aos poucos. Sua insuspeitada fragilidade só poderia ser explicitada nos minutos finais do filme. Desde a sua gênese, o roteiro previa um desfecho desconcertante; uma lição de vida absorvida na porrada, um obstáculo que impõe a superação de cabeça ereta. Nesse sentido, a construção final da montagem obedeceu – e muito – o rendimento proporcionado pela entrega absoluta da atriz ao seu personagem. Eu e montadora Cristina Amaral cortamos seqüências inteiras estimulados por sua vigorosa atuação. O Cauã Reymnond foi outra aposta pessoal que me surpreendeu a cada dia de filmagem. Inicialmente, pensei em fazê-lo dublar um profissional nas seqüências cantadas; mas ele insistiu em passar por teste, mesmo sem ter enfrentado microfone uma vez na vida. Quando conversei com o Nelson Ayres, diretor musical do filme, ele declinou: “Não me faça fazer isso, eu vou reprovar antes de ouvir!”. Afinal, Ayres foi o responsável por revelar algumas das mais belas vozes do país; Mônica Salmaso, entre elas. Foi então que ele sugeriu Marcos Levy, o melhor arranjador de música “soul” do Brasil, para se responsabilizar por toda trilha pop do filme e dividir a assinatura da trilha original. Levy proibiu Cauã de fazer teatro no dia do teste e eu fui testemunha da tortura tonal a que o ator foi submetido. Eu já tinha desistido da empreitada quando Levy me chamou de lado e disse que ia dar certo. Com o empenho do ator, o talento de Levy e a generosa contribuição da Banda Trupe, Cauã se tornou o ídolo Bruno de André, ao vivo e a cores. Foi essencial também o fato de Paulo Ricardo ter cedido uma música inédito de seu disco “Prisma”, chamada “Noites Vazias” (é óbvio que escolhi esta música como uma homenagem pessoal a Walter Hugo Khouri), para a performance do ídolo jovem. No mais, acho que tive muita sorte com todo o elenco. Djin Sganzerla é um assombro, mesmo sabendo que corre cinema em seu sangue e veias desde o dia em que nasceu. Sabe-se que é muito mais fácil transfigurar uma mulher bonita do que o contrário, mas nenhum efeito de maquiagem substitui o impacto de uma expressão contundente de exclusão. Embora apareça menos de quinze minutos em cena, Maurício Mattar foi essencial para dar credibilidade – com seu carisma, masculinidade e doçura de voz - ao personagem Luis Ronaldo, o maior cantor romântico do hemisfério; uma espécie de Julio Iglesias nativo. João Bourbonnais, Léo Áquilla, Jiddu Pinheiro, Maeve Jinkings, Vanessa Prieto, Luciana Brites e todos os demais atores talentosos vieram do teatro. Uma participação que, acredito, vai surpreender todo mundo é a de Suzana Alves, cujo imenso talento cômico e cênico vem sendo lapidado há alguns anos no grupo Macunaíma. O único ator com quem eu já havia trabalhado intensamente antes é o Bertrand Duarte, o protagonista de ALMA CORSÁRIA, que faz uma participação muito especial neste filme.

 FALSA LOURA não é exatamente aquilo que a gente costuma chamar de “música para festival”. É um filme em tom baixo. Eu o defino como um adágio, no sentido latino ou itálico e musical do termo: "uma sentença breve que encerra uma moralidade"; "um dos andamentos lentos da música". Este “racconto” que encerra uma moralidade, não será nunca moralizante. Trata-se de decifrar alguns códigos das paixões efêmeras e prosaicas. A mensagem é óbvia: sem estrada não há destino. Só é possível atravessar o pântano sujando as patas e saindo ileso. Aliás, a periferia neste filme é uma metáfora do pântano. FALSA LOURA é também “quase” um musical e seus quinze minutos finais estão entre o que eu filmei de melhor na vida. Como a platéia vai reagir a este adágio é uma incógnita.

 Uma coisa eu prometo: toda a urgência de abstração, a fúria cinéfila lapidada nestes últimos meses de prospecção virtual e a energia insurreta armazenadas antes e após a minha ressurreição no Incor (após três pontes de safena e uma mamária incrustadas no meu Graal), eu estou guardando para o meu próximo filme, O MAR DAS MULHERES FINAIS. Aí, quem sabe, eu volte em um novembro próximo para me imolar publicamente no palco do cine Brasília.

CARLOS REICHENBACH - Novembro de 2007