GAROTAS DO ABC

 no site da DEZENOVE

 

2003/2004

 

FICHA TÉCNICA

GAROTAS DO ABC

(Aurélia Schwarzenega)

um filme escrito e dirigido por

CARLOS REICHENBACH

  uma produção

SARA SILVEIRA

  produção executiva MARIA IONESCU

distribuição EUROPA FILMES

  produtores associados

LOC’ALL DE CINEMA E TELEVISÃO e SELTON MELLO

com os seguintes suportes

TV CULTURA

FUNDAÇÃO PADRE ANCHIETA

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO

PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO

PREFEITURA DE SÃO BERNARDO DO CAMPO

RIO FILMES

Direção de Produção

ELIANE BANDEIRA e RUI PIRES

Argumento e Roteiro CARLOS REICHENBACH

com o apoio da BOLSA VITAE DE ARTES

Colaboração no roteiro FERNANDO BONASSI

com o apoio de FONDS SUD CINEMA / MINISTÈRE DES AFFAIRES ETRANGÈRES

  Diretor de Fotografia

JACOB SARMENTO SOLITRENICK

  Operadores de Câmara

RODRIGO TOLEDO e JACOB SARMENTO SOLITRENICK

Montagem CRISTINA AMARAL

Som Direto ROMEU QUINTO

Edição de Som JOÃO GODOY e EDUARDO SANTOS MENDES

Mixagem JOSÉ LUIZ SASSO

Trilha Sonora e Arranjos NELSON AYRES

Músicas

NELSON AYRES,

ZÉ RICARDO, MACAU,

MARCOS LEVY, CARLOS REICHENBACH

PAULO VANZOLINI e RICHARD WAGNER

Diretor de Arte LUÍS ROSSI

Cenografia VALDY LOPES FERREIRA

Figurinos CAROLINA LI

Produtora de Elenco VIVIAN GOLOMBEK

 

ELENCO (personagem/ator)

  As Operárias

Aurélia MICHELLE VALLE

Antuérpia VANESSA ALVES

Paula Nélson NATÁLIA LORDA

Suzana LUCIELE DI CAMARGO

Marcinha VANESSA GOULART

Lucineide FERNANDA CARVALHO LEITE

Nelinha MÁRCIA DE OLIVEIRA

Indarlércia VIVIANE PORTO

Kinuyo LINA AGIFU

Nair KELLY DI BERTOLLI

Carmo ANA CECÍLIA COSTA

Natália MARIANA LOUREIRO

 

A Família de Aurélia

Aurélio ANTONIO PITANGA

Adilson ROCCO PITANGA

Tia Tereza ÂNGELA CORRÊA

Dona Avelina NEIDE DE DEUS

 

 Os Maus e os Bons

Fábio Tavares FERNANDO PAVÃO

Salesiano de Carvalho SELTON MELLO

André Luiz Oliveira DIONISIO NETO

Nicanor EDUARDO SOFIATI

Alemão MILHEM CORTAZ

Ruggero FÁBIO FERREIRA DIAS

Fineza PAULO BORDHIN

Maleita ALESSANDRO AZEVEDO

Rapaz do ponto de ônibus / baile MARCELO BORTOTTO

 

Os Adultos

Nelson Torres ÊNIO GONÇALVES

Dr. Oswaldo Sampaio ADRIANO STUART

Sofia VERA MANCINI

Solange FAFÁ DE BELÉM

Zé Ricardo ZÉ RICARDO

Participações Carinhosas

ALBENIS ALVES DO AMARAL

TATA AMARAL

BRUNO DE ANDRÉ

 

Banda TNT 5

SANDRINHO LIMA

DANIEL AMORIN

THIAGO AMORIM

ULLY COSTA

DUDU MARQUES

 

Banda Zé Ricardo

ZÉ RICARDO

JORGE AILTON

CLÁUDIO COSTA

MAURÍCIO PIASSAROLLO

CEZINHA

 

Trlha Sonora - Relação de Músicas

Sam Ray "O Despertar" (Aurélia acorda nua e veste o uniforme) Autores: Nelson Ayres e Marcos Levy

"Garotas do ABC" (Saída das operárias) Autor: Nelson Ayres

"Represa/Sexo" (Fábio despe Aurélia) Autor: Nelson Ayres

"Choro do Adeus" (Os Teares) Autor: Nelson Ayres

"Paula" (Paula Nelson e André Luiz) Autor: Nelson Ayres

Sam Ray "Strip-tease" (Aurélia e Fábio no depósito) Autor: Marcos Levy

"Asfalto" (Aurélia perdida nas Marginais) Autor: Nelson Ayres

"Sonho de Aurélia" (Aurélia imagina o pai no depósito) Autor: Nelson Ayres

"Pedreira" (Salesiano e Fábio na pedreira) Autor: Nelson Ayres

"Cicatrizes" (as cicatrizes de Suzana e Dr.Mazini) Autor: Nelson Ayres

Sam Ray "Disco Novo" (Aurélia ganha CD de Sam Ray) Autor: Nelson Ayres e Marcos Levy

"Volta por Cima" (pagode na feijoada) Autor: Paulo Vanzolini

TNT 5 "Eva Trol" - (Clube Democrático 1) Autor: Carlos Reichenbach (arranjo: Nelson Ayres)

TNT 5 "Catarina" - (Clube Democrático 2) Autor: Carlos Reichenbach (arranjo: Nelson Ayres)

TNT 5 e Fafá de Belém "Pecados de Amor" (apresentação de Solange - Fafá de Belém) Autor: Nelson Ayres

Zé Ricardo e Banda "Com Ela" –Autor: Zé Ricardo

Zé Ricardo e Banda "Swing Democrático" –Autor: Zé Ricardo

Excertos da ópera "Rienzi" (cortejo com motos e Fábio abandonando Salesiano) Autor:  Richard Wagner (arranjos de Alexandre Guerra e Nelson Ayres)

"Morrer Várias Vezes" (morte de Fábio no mar) Autor: Nelson Ayres

Fafá de Belém & Zé Ricardo "Olhos Coloridos" (créditos finais) Autor: Macau

 

FILMADO NAS CIDADES DE SÃO BERNARDO, SÃO CAETANO, SANTO ANDRÉ, DIADEMA, SÃO PAULO, SUZANO e BERTIOGA.


Ano de Lançamento 2004

BRASIL, 2003/2004, 35mm, COLOR, 125'

 

 

 

 

 

 

 

 

 

GAROTAS DO ABC - Premiações

FESTIVAL DE BRASÍLIA 2003
Prêmio Especial do Júri
Melhor Atriz Coadjuvante - Vera Mancini
Melhor Ator Coadjuvante - Ênio Gonçalves
Prêmio Andi da Juventude ("por abordar com dignidade o universo da jovem mulher operária")

 Sinopse
  No ABC de São Paulo, região de fábricas têxteis e metalúrgicas, um grupo de operárias vive seu cotidiano de intenso trabalho, sonhos e ilusões. Entre elas, destaca-se Aurélia, operária negra, bela e atrevida, que adora homens fortes e musculosos . Ela namora Fábio, jovem enturmado em um grupo neonazista, liderado pelo jovem advogado Salesiano de Carvalho.

 

Resumo

  Em São Bernardo, cidade do ABC paulista, região de fábricas têxteis e metalúrgicas, um grupo de operárias vive seu cotidiano de intenso trabalho, sonhos e ilusões. A principal delas, Aurélia, é fã do ator Arnold Schwarzeneger e adora homens fortes e musculosos. Seus problemas começam quando ela se apaixona por Fábio, um musculoso neonazista que integra uma gangue que vive praticando atentados contra negros e nordestinos. Entre as demais personagens femininas, algumas se destacam: a operária Paula Nélson, que é assediada por um líder sindical, ao mesmo tempo em que tenta manter a harmonia entre as meninas da fábrica; Antuérpia, que aos 38 anos tenta iniciar-se na profissão de tecelã; e a casta Suzana, apaixonada pelo patrão. Ela parece sentir prazer com os pequenos acidentes de trabalho que sofre e deixam marcas em seu corpo, além de garantir um bom dinheiro a título de indenização. Entre os protagonistas masculinos o mais desprezível é Salesiano de Carvalho, o líder dos neonazistas e mentor intelectual da série de atentados que eles praticam contra nordestinos e negros.

Apresentação
  Garotas do ABC (Aurélia Schwarzenega), décimo-terceiro longa-metragem de Carlos Reichenbach, chega aos cinemas depois de calorosa recepção nos festivais de Brasília, Tiradentes e pré-estréias abertas ao público.

 Carlão mobilizou, neste filme anarco-libertário, grande elenco, soma de profissionais experientes (como Ênio Gonçalves, Vera Mancini, Adriano Stuart, Antônio Pitanga e Selton Mello), a jovens talentos como Michelle Valle, Fernando Pavão, Luciele di Camargo, Natália Lorda e Rocco Pitanga. Mobilizou, também, técnicos de ponta, como o fotógrafo Jacob Solitrenick, a montadora Cristina Amaral e o diretor de arte Luís Rossi.

 Para a trilha sonora -- quase um personagem no filme, já que as tecelãs se divertem no ABC Clube Operário -- o maestro Nelson Ayres criou temas erudito-sinfônicos, compôs choros e até um bolerão (cantado com garra e sentimento pela Solange de Fafá de Belém).  E, em parceria com Levy, mimetizou a música de Marvin Gaye (1939-1984), a preferida das garotas do ABC, em som de altíssima voltagem, soul music a la Motown, a cargo do fictício Sam Ray.

 O filme se passa no ABC paulista, região operária, território de fábricas têxteis e metalúrgicas, de gente trabalhadora e de desempregados. E também de jovens (carecas, neonazistas, racistas) reunidos em gangues que odeiam negros, nordestinos e homossexuais.

 A imprensa sócio-policial brasileira registrou, recentemente, trágico fato protagonizado por integrantes destas gangues: eles obrigaram dois jovens a pular de um trem em movimento. Um perdeu um braço. O outro, a vida

 

Depoimentos do Diretor
 
A GÊNESE DO PROJETO

 Garotas do ABC é o aperfeiçoamento de um antigo projeto de produção: "Sonhos de Vida" e "Vida de Sonhos". Seriam dois filmes a serem realizados simultaneamente, com os mesmos personagens e locações, incluindo um clube operário e uma indústria têxtil da região do ABC de São Paulo. "Sonhos de Vida" seria um filme sobre o trabalho, enquanto "Vida de Sonhos" falaria do tempo livre como o verdadeiro espaço de liberdade e valorização do ser humano.
 Na sua gênese, o intuito desse projeto era dar seqüência ao mergulho pessoal no meu imaginário a respeito do universo feminino submetido a brutalização social da periferia de São Paulo; tema que já aparecia esboçado em filmes como Lilian M., Relatório Confidencial (1974), Amor Palavra Prostituta (1980) , e melhor desenvolvido em Anjos do Arrabalde (1987).

  Com o tempo (o primeiro esboço dos dois filmes surgiu em 1987), fui me interessando cada vez mais em dar vida própria a cada uma das personagens principais de Sonhos de Vida e Vida de Sonhos, chegando a pensar na realização de seis filmes de longa-metragem com cenários e personagens se revezando de um para outro. Seis filmes de gêneros diferentes, seis visões originais da realidade brasileira, seis crônicas urbanas, passíveis de serem posteriormente editadas no formato de série de 13 capítulos para a televisão. Esse projeto atrevido recebeu o nome de ABC – Clube Democrático (Garotas do ABC) e confesso que ele tomou corpo na minha cabeça após a visão de  Berlin Alexanderplatz , de Rainer Werner Fassbinder.

 Mais que as relações de trabalho, me interessou flagrar o cotidiano de personagens submetidas à hostilidade de seu meio social.

 AS PROTAGONISTAS

 As seis personagens-título: Aurélia, a linda negra que é fã de Arnold e namora um neonazista; Paula Nélson, a mais competente do grupo, uma espécie de mãezona que tem problemas sérios em se relacionar com os homens; Antuérpia, a mais nova das funcionarias embora a mais velha do grupo, que tenta desesperadamente recuperar o filho legalmente "seqüestrado" por sua rica e poderosa  sogra; Lucineide, a mais sensual e desinibida de todas, a rainha do Clube Democrático, que, inconscientemente, flerta com a prostituição; Suzana (Suzy Di) uma casta tecelã que perde partes de seu lindo e frágil corpo por amor ao trabalho e ao patrão. E, finalmente, Arlete, a doce porralouca que sai da Febem masculinizada e aprende a amar os homens a partir de seu contato com os teares. Arlete seria a única personagem que aparecia num único filme; todas as demais se revezariam em aparições constantes em todos os filmes. 

 Outras cinco personagens, fariam parte permanente do universo de ABC – Clube Democrático: Marcinha Zarolha, Kinuyo Sugawa, a menor de idade Nelinha, a negra e sorridente Indalércia, e Nair, uma tecelã extraordinária com uma outra - e a mais antiga - profissão.

 Vários outros personagens masculinos trafegariam por todos os filmes: o velho jornalista Nélson Torres (uma espécie de coringa do projeto), o delegado new-age Oswaldo Sampaio, o sindicalista safo André Luiz Oliveira, a advogada trabalhista Dra. Andréia Tonacci, o simpatizante anarquista e dono do último cinema de Diadema, Paulo Emílio Sales, o pintor naif furioso e esclerosado Gonçalo Pesqueira, o corrupto advogado Ivangilson Vargas, o industrial têxtil que está saindo da concordata Dr. Mazini, o metalúrgico romântico e órfico Inácio Araújo, o ídolo musical Bruno de André, a rigorosa supervisora de seção Maria do Carmo, o incendiário Antero (pai de Lucineide), o cineasta participante Éder Mazini, o militar e irmão de Aurélia (Adílson-Didão), a alcoólatra e feiticeira Sofia, o justiceiro Maleita, a neófita e cruel jovem empresária Berenice Mazini, e, entre outros, Linda, a mulher mais linda do país. Quem for ver Garotas do ABC vai reconhecer vários destes personagens.

 Um expediente que tornou a tarefa da escritura mais saborosa foi ter nomeado alguns personagens com o nome de meus amigos mais próximos. Isso tornou o trabalho um deleite, já que estes amigos são o reverso da personalidade dos personagens.

 BOLSA VITAE

 Em 1995, fui contemplado com a Bolsa Vitae de Artes para escrever quatro dos roteiros da série, em 14 meses. Em janeiro de 1997, entreguei os quatro roteiros - em seu primeiro tratamento: Aurélia Schwarzenêga,  Anjo Frágil Antuérpia, Lucineide Falsa Loura e A Fiel Operária Suzy Di.

 Naquele período pude me aprofundar na pesquisa do universo da mulher tecelã. Nunca pretendi realizar com esses filmes um tratado sociológico sobre o assunto, mas trabalhar o meu imaginário a respeito do universo feminino submetido às perversões do progresso desordenado e caótico que caracterizam regiões surgidas à margem da industrialização acelerada. Como bem analisa o cineasta japonês Shohei Imamura, a classe média baixa, o semi-lúmpen, pode ser enxergada como a sociedade do umbigo. É esta casta que às vezes me leva a pensar filmes e com a qual sempre se interessei em dialogar através dos meus filmes.

 Durante o período que esbocei os quatro roteiros percorri todos os cenários que tinha em mente, conversando com operárias, policiais, ocupantes de terrenos irregulares, sindicalistas, advogados trabalhistas, etc. E a mais prolífica das estratégias foi andar muito de ônibus, uma fonte inesgotável de descobertas sobre paixões, frustrações, ansiedades, expectativas e mesmo a ideologia das jovens mulheres do ABC. A maioria dos diálogos entre as personagens femininas dos seis filmes são reproduções retrabalhadas do que eu ouviu nessas errâncias.

 É claro que fui obrigado a desistir da idéia de rodar os seis filmes simultaneamente. Depois que resolvermos centrar esforços para filmar o "piloto" da série, "Aurélia Schwarzenega, eu e a minha sócia, a produtora Sara Silveira, levamos cinco anos para captar o dinheiro para produzi-lo.

 CORTANDO 45 MINUTOS DE FILME

 No final do que considerei o primeiro corte definitivo de Aurélia Schwarzenega, ficamos com um filme de quase três horas. Mandamos três fitas de vídeo para a Europa e consultamos dois produtores estrangeiros amigos nossos. Nenhum deles queria ficar com um filme de três horas. Pior, na opinião deles quem "roubava" o filme eram os personagens masculinos, em especial, os ignóbeis neonazistas. Voltei para a ilha de edição e após uma longa conversa com a montadora Cristina Amaral, minha maior cúmplice, decidimos cortar as cenas dos neonazistas pela metade e diminuir o peso das costas da protagonista Aurélia. De certa maneira, depois destes cortes o filme retomou as características de seu projeto original "Sonhos de Vida" e "Vida de Sonhos". Nos seus atuais 125 minutos, contados os letreiros finais, Aurélia divide a atenção com sua família inteira e, particularmente, três de suas colegas: Paula Nélson, Antuérpia e Suzana. Por isso a mudança de nome. Desistimos de chamá-lo Aurélia Schwarzenega  porque este filme não é mais centrado numa única personagem mas no coletivo da família negra, do local de trabalho e do clube operário.

SAM RAY, O ÍDOLO DE AURÉLIA

 Uma das grandes curiosidades ocorridas no processo de pesquisa no ABC, durante o período das Bolsas Vitae, que obrigou a mim e ao maestro Nelson Ayres a encontrar uma solução ardilosa e brasileira foi descobrir em Marvin Gaye (o falecido ídolo americano da musica soul) o caminho para entender o universo de sonhos, ambições profissionais e amores do grupo social que desejava retratar: a operária negra. Tentamos, durante todo o período de pré-produção, comprar os direitos de dois sucessos do ídolo maior da lendária gravadora Motown para incluir na trilha sonora. Sua editora e gravadora nos Estados Unidos não se dignou nem em estipular valores, tratando a produtora executiva Maria Ionescu com a arrogância do silêncio. Mais uma vez tivemos que elaborar uma solução emergencial. Ouvindo casualmente um dos cds que acompanham a revista inglesa Future Music, que eu assinava na época, fiquei fascinado com o grupo inglês Subverse, que recuperou a beleza dos timbres dos tradicionais órgãos Hammond (o mesmo timbre típico do anos 60, que tentei reproduzir em "Alma Corsária") e então, eu tive a idéia.  Liguei para o Nelson Ayres e pedi para ele inventar SAM RAY: "o papa do soul" e mago dos órgãos Hammond. Ayres chamou Marcos Levy, o Xuxa, o tecladista e arranjador de Paula Lima, apaixonado por Marvin Gaye, e ambos fizeram surgir o ídolo de Aurélia e de todas as operárias negras do ABC. Sam Ray só aparece em cartazes e capas de disco na casa de Aurélia e de suas colegas de fábrica. Suas feições são as do diretor de produção, e querido amigo, Rui Pires, fotografado de todos os ângulos possíveis ao lado de um belo teclado Hammond. Em tempo: Sam Ray é uma homenagem explícita a dois de meus diretores favoritos, Samuel Fuller e Nicholas Ray.

A TECELAGEM

 Para as cenas da fábrica foi preciso achar uma solução "bárbara e nossa", já que reproduzir uma antiga tecelagem em estúdio ficaria muito caro. A produção localizou a tradicional fábrica de cobertores Tognato, em São Bernardo, que estava desativada e que, por acaso, ficava há duas quadras da Vera Cruz. Era o local perfeito. Tivemos que consertar algumas máquinas, pois muitas não funcionavam mais. O diretor de arte Luís Rossi e sua equipe construiram o mezanino onde a supervisora Carmo fiscaliza o galpão inteiro. Para minimizar a cor soturna do ambiente, Rossi deu preferência a tecidos azuis e amarelos manipulados pelos teares.

A ORAÇÃO DE MALEITA (& LAMPIÃO)

 No começo das filmagens da homenagem explícita a Glauber Rocha - a seqüência em que Maleita "executa" dois dos neonazistas - o ator Alessandro Azevedo me mostrou a oração original com que Lampião "encomendava" as almas de seus desafetos. É claro que incorporamos a sugestão imediatamente.

FRITZ LANG

 Uma das minhas maiores surpresas durante as filmagens foi  a descoberta gradativa da influência inconsciente de Fritz Lang na construção da mise-en-scène de Garotas do ABC. Cada remessa de material telecinado do que havia sido filmado dois dias antes, que eu recebia para conferência (hoje não se fazem mais copiões em 35mm, mas uma cópia em VHS das cenas rodadas), eu me surpreendia descobrindo referências explícitas a filmes como "Dr. Mabuse, o Jogador", "Vive-se Só Uma Vez", "O Homem Que Quis Matar Hitler", "Quando Descem As Trevas", "Os Mil Olhos do Dr. Mabuse" e, sobretudo, "M., o Vampiro de Dusseldorf", todos de Lang.

 Quando Ivan Lins, que iria fazer uma participação afetiva interpretando o Dr. Mazini, diretor da tecelagem, precisou fazer uma cirurgia odontológica, me lembrei de Lang e resolvi entrar em cena apenas com as minhas mãos e silhueta. Em todos os filmes de Fritz Lang tem um plano das mãos do genial diretor.

CARLOS REICHENBACH