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O MELHOR DO
REDUTO DO
COMODORO
01

UM PAULISTA
NO SAMBÓDROMO
O convite para o camarote da Brama veio
por conta de uma "homenagem ao cinema brasileiro". O escriba resolveu sair
do seu reduto para satisfazer um antigo desejo da companheira Lygia: ver
de perto a mais bela festa do mundo.
Um caipira em Bariloche. Um palerma em Palermo. Qualquer título similar
poderia sintetizar as doze horas de estranhamento no ninho. É certo que
aquela não é a minha praia, mas eu lá estive após seis horas de Via Dutra
nas poltronas dos ônibus Gold, da viação Itapemirim. Disseram que esse tal
de "Gold" não parava em lugar nenhum; parou, quinze minutos em Itatiaia.
O amigo Inácio Araújo chamou a atenção: "Cê vai p´ra festa VIP de
ônibus????". Eu fui. E paguei o mico de ir ao Porcão pegar credencial,
tirar foto 3/4 (horrível como sempre) e vestir a nada discreta camiseta
vermelha que é portfolio escancarado da cervejinha nota 10. Dentro do
enorme camarote da Brama, todos os cartazes do cinema brasileiro menos os
meus e dos meus amigos e ídolos. Encontrei outros estranhos no ninho e
logo fui com a minha mulher em busca de um lugar decente para ver o
desfile da segunda-feira. Estava terminando o primeiro desfile da noite, a
Tradição, e não conseguimos ver nada desta escola à não ser ouvir os
derradeiros ecos da dispersão.
Ficamos daí para frente até a última escola e até as últimas Vans que
saiam com muita lerdeza do sambódromo na direção do tal Porcão do aterro.
O fim de noite, já no clarão das nove horas da manhã, poderia simbolizar a
dispersão autêntica de foliões retardatários e Vips à beira de um ataque
de stress e sono.
Todas as impressões que se seguem à respeito das escolas foram feitas por
um autêntico neófito no assunto; logo, não pressupõe análise abalizada e
competente. O crivo é o da impressão imagética e o da sintonia musical e
dos sentidos subjetivos.
PORTO DA PEDRA
Opinião do leigo: nota dez, com louvor.
Uma comissão de frente espetacular com bailarinos e ginastas debaixo de
pesadíssimas fantasias de cachorros. Os jornais noticiaram o cansaço dos
performers após os primeiros quarenta minutos. De qualquer maneira, para
nós, que estávamos logo no começo do desfile, de frente a cabine dos
jurados, a cachorrada (no melhor sentido do termo) deu tudo de si.
O samba da Porto de Pedra é ótimo e a escola mostrou um empenho e um
entusiasmo comovente. Durante todo o desfile (que eu assisti) o público
sempre me deu a impressão de reagir melhor nas escolas mais conhecidas; a
PORTO DA PEDRA pode até cair de divisão, mas se isso acontecer é por
afasia da platéia, que estava irritada com a chuva que começava a cair.
Agora, dez ao cubo para a espetacular Ketula, uma negra linda e escultural
- e que me perdoem as senhoras presentes no recinto - com uma das mais
rígidas e volumosas bundas do universo. Nota mil para Deus!!!!!!!

IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE
Opinião do leigo: nota dez, com discrição.
Outra comissão de frente (sei lá, ao vivo e à cores, a comissão de frente
me pareceu a pérola de todos desfiles de escola de samba) espetacular.
O samba é magnífico e a escola é profissionalíssima. Talvez, o seu maior
mérito (a competência) seja a sua perversão. Em toda obra de arte, são as
pequenas (e, muitas vezes, aparentes) idiossincrasias que crivam sua
excelência e sua personalidade irreprochável. Com a Imperatriz, faltou o
diferente.
Acho que foi no "prólogo" desta escola que apareceu um rapaz gay (bem
alegre, diga-se de passagem) dando um show à parte e preparando os ânimos
para o que viria a seguir. Pois é, a "louca" deveria estar no meio do
desfile, mandando ver seu entusiasmo fabuloso, subversor e anticareta.
IMPÉRIO SERRANO
Não vou nem dar nota de avaliação porque abandonei o desfile logo no
início, quando percebi que esta foi uma das escolas que usou o capcioso
recurso da música sobejamente conhecida. Ou seja, a empolgação obvia da
platéia tem nome e endereço próprio; sem dúvida, uma imensa injustiça com
as outras escolas (em especial com os ótimos - e inéditos - sambas da
PORTO DAS PEDRAS e da IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE). Por outro lado baixou uma
fome danada nas primeiras alas de figuração esfomeada.
O escriba e sua companheira foram matar a fome no restaurante do camarote
onde uma série de trailers de filmes brasileiros recém concluídos estavam
sendo projetados. Na verdade, o tal restaurante do camarote parecia ter
sido patrocinado pela TV Globo, já que todos os trailers eram de filmes
produzidos por ela. De "OLGA", de Jayme Monjardim, foi projetado um "demo"
interminável de aproximadamente vinte minutos. A impressão que passou do
filme pareceu catastrófica. A impressão generalizada era de que estavamos
assistindo a um filme americano classe B. Em compensação, o curtíssimo
demo de "CAZUZA" foi de encher a boca de água. Que diferença! Lição de
casa: é preciso ter cuidado com o tempo excessivo dos trailers e demos.
BEIJA-FLÔR
Empolgação popular arrasa-quarteirão. No samba, o equívoco perigosíssimo
do refrão reacionário: "ANAUÊ!!!!". Olha, foi assustador ver aquele
amontoado de gente gritando em voz alta a saudação oficial do fascismo
nativo. Eis, senhores, um país de memória mínima! Podem me acusar de
xiita, mas a ignorância nacional com a sua história mais recente é de dar
medo (e nojo). É evidente que quem pesquisou o enredo da Beija-Flor de
Nilópolis, foi buscar inspiração na cultura indígena. Descobriu o "Anauê!",
mas se esqueceu (ou nunca soube) o que ele representa (ou simboliza) de
nefasto para a cultura e a história brasileira. Pode-se dizer, sem
exagero, que não seria de estranhar aparecer no meio das fantasias e
alegorias, o Sigma, o feixe ou até a suástica. De qualquer forma, o olho
do símbolo maçônico esteve presente nas fantasias de uma das alas da
BEIJA-FLÔR. Para mim, a bela festa da escola foi implodida pela
ingenuidade (ou ignorância) dos compositores de seu samba.
VIRADOURO
Esta é uma escola guerreira. Sob intensa chuva e os primeiros sinais da
claridade do dia, o entusiasmo de seus integrantes levantou a galera e a
moral geral. As destaques da Viradouro foram um show à parte. Juliana
Paes, nota mil (grande mulher, grande destaque). Já o samba, que fez o
público cantar animado, tem um estribilho que é plágio descarado de "As
Pastorinhas". Sinto muito, mas para mim isso perde ponto (e muito).
MOCIDADE INDEPENDENTE
Opinião do leigo: nota dez, com discrição. Competência e vibração na mais
prejudicada das escolas. Mesmo assim, o dia pleno e a chuva não empanaram
o brilho da escola de Padre Miguel. Em especial, de sua espetacular
comissão de frente onde autênticos malabaristas ("Intrépida Troupe"????)
deram um show - de reter a respiração - de "como desafiar todos os limites
do equilíbrio e da resistência física". Embora o assunto do belo samba
original não tivesse rendido originalidade e pertinência, a bateria
magistral e o empenho de todos os integrantes da escola fecharam o desfile
com chave de ouro.
Eu e Lygia voltamos para São Paulo dormindo o sono dos justos nas
poltronas da Viação Cometa. Acordamos já na marginal de São Paulo com a
sensação de missão cumprida e de que poderiamos contar, no futuro, aos
nossos netos que "nós vimos a mais bela festa da Terra" no "camarote dos
Vips". Ah, e que vimos também Gisele Bünchen, aquele "arroz de festa".
DEU NO BLOG DO TAS
Blog do Marcelo Tas
PS: o grande bonus do camarote da Bhrama este ano foi o tema cinema
nacional. A presença de cineastas de todo espectro abrandaram a
concentração de cafas por metro quadrado, tradicional naquele pedaço. Tive
o prazer de desfrutar da companhia do folião hiper bissexto Carlão
Reichenbach, que tem um blog do cacete. Com fotos inusitadas e históricas.
Comentário de Reichenbach:
Agora, aqui entre nós, Tas: bissexto é a vovozinha!
DEU NO TAS - PARTE 2
- Valeu Tas,
obrigado pela dica do REDUTO DO CARLÃO, mas esse negócio de bissexto é
deboche (de Bosch, Heyronimus, como dizia o amigo JF).
O camarote da cerveja estava realmente muito animado. Teve técnico de
futebol enchendo a cara da namorada de alegria e uma tal de Gisele B., sem
segurança à bordo, dando moleza às cinco da manhã.
O duro foi sair da ratoeira para pegar o micro até o Porcão. Tinha Vip e
gente fina (Pitanga, Betty Faria e Isabe Fillardis) na fila de espera (uma
hora em média).
De qualquer maneira, foi um enorme prazer assistir com você ver passar
aquele monumento de ébano chamado KETULA desafiando todas as leis da
gravidade (e de rigidez glútea).
Deus é pai, mesmo!
CARLOS REICHENBACH |
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João Callegaro e Carmem Montero nas filmagens de ANA,
episódio de AS LIBERTINAS. Carmem, que tinha sido aluna de Eugênio Kusnet
e Adolfo Celi (teatro), Bassaro Vaccarini (artes plásticas), atuado no
Oficina e com Antunes Filho, Augusto Boal e Alberto D´Aversa, entre
outros, tornou-se militante da extrema esquerda em 1968, aderindo logo
depois à luta armada. Em 1970, a polícia política invadiu os escritórios
da Xanadú Produções (na verdade, o apartamento onde morava um dos sócios,
Antonio Lima) e confiscou uma cópia de AS LIBERTINAS, na tentativa de
identificar a ex-atriz. Lima, com muita esperteza, entregou apenas os dois
episódios em que ela não aparecia. Infelizmente, nunca mais ouvimos falar
de Carmem Montero.
MANIFESTO DO CINEMA CAFAJESTE
por João Callegaro
Cinema cafajeste é cinema de
comunicação direta. É o cinema que aproveita a tradição de 50 anos de
exibição do "mau" cinema americano, devidamente absorvido pelo espectador
e que não se perde em pesquisas estetizantes, elocubrações intelectuais,
típicas de uma classe média semi-analfabeta.
É a estética do teatro de
revistas, das conversas de salão de barbeiro, das revistinhas
pornográficas. É a linguagem do "Notícias Populares", do "Combate
Democrático" e das revistinhas "especializadas" (leia-se Carlos Zéfiro). É
Oswald de Andrade e Líbero Rípoli Filho; é "Santeiro do Mangue" e "Viúva,
Porém Honesta": obras primas.
É cinema tipicamente brasileiro,
portanto é o cinema cafajeste paulista, sem bairrismos, porém com uma
visão lúcida da fauna paulistana.
Preparem-se cinéfilos frustrados,
adoradores dos Cahiers e de Godard, pois o cinema cafajeste já é uma
realidade. É o cinema de Rogério Sganzerla, o cinema de Roberto Santos (de
"O Grande Momento" e o genial episódio de "As Cariocas"), de Mojica
Marins; é o verdadeiro cinema paulista.
E o seu valor será contado em
cifras, em borderôs, em semanas de exibição: em público. E os filmes serão
geniais.
São Paulo - 1968
Adendo (CR) - Líbero Ripoli Filho foi um diretor, ator e dramaturgo
importantíssimo para o teatro paulista da década de 60. Ele encenou, por
quase quatro anos, com um grupo semi-amador, a versão mais "oswaldiana" já
feita do texto de Nelson Rodrigues. A "Viúva" de Líbero e elenco era um
dos poucos espetáculo à altura da importância de "Roda Viva", "Na Selva
das Cidades", "O Balcão" e "Rito do Amor Selvagem", no final da década.
A MINHA MELHOR PIOR CRÍTICA
Veio
de Ely Azeredo, crítico titular do Jornal do Brasil no final dos anos 60,
a avaliação mais desairosa que algum filme realizado por mim, recebeu até
hoje.
O filme chamava-se
"AUDÁCIA!" e, de certa maneira, o título já dizia tudo.
Com o tempo, a reação ácida do
crítico acabou se tornando, para mim, um troféu.


Apesar das palavras
ácidas - e deflagradoras - de Ely, a minha melhor pior crítica, veio de um
discípulo mineiro do veterano crítico carioca, e cujo nome - sinceramente
- eu não me lembro:
"Audácia!"
é um anti-filme. Além do elogio quase retórico das delícias do "barato", o
filme dispara frases de efeito como dardos à esmo, que normalmente voltam
como bumerangue, e ainda por cima tem uma câmera tão trepidante que chega
a provocar o deslocamento da retina".
ANA KARINA NATIVA
Meu episódio, intitulado
"A Badaladíssima dos Trópicos X Os Picaretas do Sexo", foi totalmente
improvisado durante as filmagens e abria com uma declaração da
cineasta-protagonista, Paula Nelson: "Temos que fazer filmes péssimos!".
A atriz que interpreta
Paula Nelson tinha sido minha namorada na adolescência.
Uma semana antes de
começar a filmar meu episódio encontrei Maria Cristina Rocha na saída de
uma das lojas da Mobilínea, onde ela trabalhava. Naquele momento me veio a
idéia de convidá-la para personificar a cineasta do meu filme. É evidente
que eu enxerguei nela o meu alter-ego feminino; afinal, ela seria a minha
melhor porta-voz, já que me conhecia tão bem: física, mental e
espiritualmente. Ela levou algum tempo até decidir aceitar o desafio. E
acho que ela me achou, naquele reencontro inesperado, meio "p´ra lá de
Bagda"; muito "experimental" para o gosto dela...
Mais tarde ela viria a
confessar que tivera a impressão que eu deveria estar exagerando nos
"secos e molhados"; muito mais nos "secos", para dizer a verdade.
Logo no primeiro dia de
filmagem, eu coloquei na boca dela todas as minhas "palavras de ordem" da
época: "Devemos decepar o fotograma de encomenda!".

Ela era extremamente "cinegênica"
e podia ter, tranqüilamente, seguido a carreira de "atriz-fetiche"
do cinema paulista. Não quis.
Era inteligente, bem
humorada e instintiva. Jairo Ferreira havia apelidado ela de "Ana Karina
brasileira".
Durante as filmagens ela
foi convidada por Antunes Filho para protagonizar "Compasso de Espera";
não aceitou. Mojica Marins, com quem havia contracenado na abertura do
episódio, tentou contratá-la como protagonista de seu futuro longa; ela
não levou à sério.
Acho que o cinema não
fazia mesmo parte do mundo dela e, após a aventura de vida que foi a
filmagem de "Audácia!", ela retornou a sua profissão original de
decoradora numa firma de imenso prestígio.

para
ler mais sobre "A BADALADÍSSIMA DOS TRÓPICOS"
UM MIMO PARA JAIRO FERREIRA

Jairo Ferreira, assistente de direção e co-roteirista, durante as
filmagens de "A Badaladíssima dos Trópicos", azeitando o espírito para
improvisar uma das frases deflagradoras de Paula Nélson, a "Agnes Varda do
cinema indígena".
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