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atualizado quinzenalmente

 

Número 01

03 de Abril de 2004

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O MELHOR DO

REDUTO DO COMODORO

01

 

 

UM PAULISTA

NO SAMBÓDROMO

 O convite para o camarote da Brama veio por conta de uma "homenagem ao cinema brasileiro". O escriba resolveu sair do seu reduto para satisfazer um antigo desejo da companheira Lygia: ver de perto a mais bela festa do mundo.
Um caipira em Bariloche. Um palerma em Palermo. Qualquer título similar poderia sintetizar as doze horas de estranhamento no ninho. É certo que aquela não é a minha praia, mas eu lá estive após seis horas de Via Dutra nas poltronas dos ônibus Gold, da viação Itapemirim. Disseram que esse tal de "Gold" não parava em lugar nenhum; parou, quinze minutos em Itatiaia.
O amigo Inácio Araújo chamou a atenção: "Cê vai p´ra festa VIP de ônibus????". Eu fui. E paguei o mico de ir ao Porcão pegar credencial, tirar foto 3/4 (horrível como sempre) e vestir a nada discreta camiseta vermelha que é portfolio escancarado da cervejinha nota 10. Dentro do enorme camarote da Brama, todos os cartazes do cinema brasileiro menos os meus e dos meus amigos e ídolos. Encontrei outros estranhos no ninho e logo fui com a minha mulher em busca de um lugar decente para ver o desfile da segunda-feira. Estava terminando o primeiro desfile da noite, a Tradição, e não conseguimos ver nada desta escola à não ser ouvir os derradeiros ecos da dispersão.
Ficamos daí para frente até a última escola e até as últimas Vans que saiam com muita lerdeza do sambódromo na direção do tal Porcão do aterro. O fim de noite, já no clarão das nove horas da manhã, poderia simbolizar a dispersão autêntica de foliões retardatários e Vips à beira de um ataque de stress e sono.
Todas as impressões que se seguem à respeito das escolas foram feitas por um autêntico neófito no assunto; logo, não pressupõe análise abalizada e competente. O crivo é o da impressão imagética e o da sintonia musical e dos sentidos subjetivos.

PORTO DA PEDRA
Opinião do leigo: nota dez, com louvor.
Uma comissão de frente espetacular com bailarinos e ginastas debaixo de pesadíssimas fantasias de cachorros. Os jornais noticiaram o cansaço dos performers após os primeiros quarenta minutos. De qualquer maneira, para nós, que estávamos logo no começo do desfile, de frente a cabine dos jurados, a cachorrada (no melhor sentido do termo) deu tudo de si.
O samba da Porto de Pedra é ótimo e a escola mostrou um empenho e um entusiasmo comovente. Durante todo o desfile (que eu assisti) o público sempre me deu a impressão de reagir melhor nas escolas mais conhecidas; a PORTO DA PEDRA pode até cair de divisão, mas se isso acontecer é por afasia da platéia, que estava irritada com a chuva que começava a cair.
Agora, dez ao cubo para a espetacular Ketula, uma negra linda e escultural - e que me perdoem as senhoras presentes no recinto - com uma das mais rígidas e volumosas bundas do universo. Nota mil para Deus!!!!!!!

 



IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE
Opinião do leigo: nota dez, com discrição.
Outra comissão de frente (sei lá, ao vivo e à cores, a comissão de frente me pareceu a pérola de todos desfiles de escola de samba) espetacular.
O samba é magnífico e a escola é profissionalíssima. Talvez, o seu maior mérito (a competência) seja a sua perversão. Em toda obra de arte, são as pequenas (e, muitas vezes, aparentes) idiossincrasias que crivam sua excelência e sua personalidade irreprochável. Com a Imperatriz, faltou o diferente.
Acho que foi no "prólogo" desta escola que apareceu um rapaz gay (bem alegre, diga-se de passagem) dando um show à parte e preparando os ânimos para o que viria a seguir. Pois é, a "louca" deveria estar no meio do desfile, mandando ver seu entusiasmo fabuloso, subversor e anticareta.

IMPÉRIO SERRANO
Não vou nem dar nota de avaliação porque abandonei o desfile logo no início, quando percebi que esta foi uma das escolas que usou o capcioso recurso da música sobejamente conhecida. Ou seja, a empolgação obvia da platéia tem nome e endereço próprio; sem dúvida, uma imensa injustiça com as outras escolas (em especial com os ótimos - e inéditos - sambas da PORTO DAS PEDRAS e da IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE). Por outro lado baixou uma fome danada nas primeiras alas de figuração esfomeada.
O escriba e sua companheira foram matar a fome no restaurante do camarote onde uma série de trailers de filmes brasileiros recém concluídos estavam sendo projetados. Na verdade, o tal restaurante do camarote parecia ter sido patrocinado pela TV Globo, já que todos os trailers eram de filmes produzidos por ela. De "OLGA", de Jayme Monjardim, foi projetado um "demo" interminável de aproximadamente vinte minutos. A impressão que passou do filme pareceu catastrófica. A impressão generalizada era de que estavamos assistindo a um filme americano classe B. Em compensação, o curtíssimo demo de "CAZUZA" foi de encher a boca de água. Que diferença! Lição de casa: é preciso ter cuidado com o tempo excessivo dos trailers e demos.

BEIJA-FLÔR
Empolgação popular arrasa-quarteirão. No samba, o equívoco perigosíssimo do refrão reacionário: "ANAUÊ!!!!". Olha, foi assustador ver aquele amontoado de gente gritando em voz alta a saudação oficial do fascismo nativo. Eis, senhores, um país de memória mínima! Podem me acusar de xiita, mas a ignorância nacional com a sua história mais recente é de dar medo (e nojo). É evidente que quem pesquisou o enredo da Beija-Flor de Nilópolis, foi buscar inspiração na cultura indígena. Descobriu o "Anauê!", mas se esqueceu (ou nunca soube) o que ele representa (ou simboliza) de nefasto para a cultura e a história brasileira. Pode-se dizer, sem exagero, que não seria de estranhar aparecer no meio das fantasias e alegorias, o Sigma, o feixe ou até a suástica. De qualquer forma, o olho do símbolo maçônico esteve presente nas fantasias de uma das alas da BEIJA-FLÔR. Para mim, a bela festa da escola foi implodida pela ingenuidade (ou ignorância) dos compositores de seu samba.

VIRADOURO
Esta é uma escola guerreira. Sob intensa chuva e os primeiros sinais da claridade do dia, o entusiasmo de seus integrantes levantou a galera e a moral geral. As destaques da Viradouro foram um show à parte. Juliana Paes, nota mil (grande mulher, grande destaque). Já o samba, que fez o público cantar animado, tem um estribilho que é plágio descarado de "As Pastorinhas". Sinto muito, mas para mim isso perde ponto (e muito).

MOCIDADE INDEPENDENTE
Opinião do leigo: nota dez, com discrição. Competência e vibração na mais prejudicada das escolas. Mesmo assim, o dia pleno e a chuva não empanaram o brilho da escola de Padre Miguel. Em especial, de sua espetacular comissão de frente onde autênticos malabaristas ("Intrépida Troupe"????) deram um show - de reter a respiração - de "como desafiar todos os limites do equilíbrio e da resistência física". Embora o assunto do belo samba original não tivesse rendido originalidade e pertinência, a bateria magistral e o empenho de todos os integrantes da escola fecharam o desfile com chave de ouro.

Eu e Lygia voltamos para São Paulo dormindo o sono dos justos nas poltronas da Viação Cometa. Acordamos já na marginal de São Paulo com a sensação de missão cumprida e de que poderiamos contar, no futuro, aos nossos netos que "nós vimos a mais bela festa da Terra" no "camarote dos Vips". Ah, e que vimos também Gisele Bünchen, aquele "arroz de festa".

DEU NO BLOG DO TAS
Blog do Marcelo Tas
PS: o grande bonus do camarote da Bhrama este ano foi o tema cinema nacional. A presença de cineastas de todo espectro abrandaram a concentração de cafas por metro quadrado, tradicional naquele pedaço. Tive o prazer de desfrutar da companhia do folião hiper bissexto Carlão Reichenbach, que tem um blog do cacete. Com fotos inusitadas e históricas.

Comentário de Reichenbach:
Agora, aqui entre nós, Tas: bissexto é a vovozinha!

DEU NO TAS - PARTE 2
- Valeu Tas,
obrigado pela dica do REDUTO DO CARLÃO, mas esse negócio de bissexto é deboche (de Bosch, Heyronimus, como dizia o amigo JF).
O camarote da cerveja estava realmente muito animado. Teve técnico de futebol enchendo a cara da namorada de alegria e uma tal de Gisele B., sem segurança à bordo, dando moleza às cinco da manhã.
O duro foi sair da ratoeira para pegar o micro até o Porcão. Tinha Vip e gente fina (Pitanga, Betty Faria e Isabe Fillardis) na fila de espera (uma hora em média).
De qualquer maneira, foi um enorme prazer assistir com você ver passar aquele monumento de ébano chamado KETULA desafiando todas as leis da gravidade (e de rigidez glútea).
Deus é pai, mesmo!

CARLOS REICHENBACH

 

João Callegaro e Carmem Montero nas filmagens de ANA, episódio de AS LIBERTINAS. Carmem, que tinha sido aluna de Eugênio Kusnet e Adolfo Celi (teatro), Bassaro Vaccarini (artes plásticas), atuado no Oficina e com Antunes Filho, Augusto Boal e Alberto D´Aversa, entre outros, tornou-se militante da extrema esquerda em 1968, aderindo logo depois à luta armada. Em 1970, a polícia política invadiu os escritórios da Xanadú Produções (na verdade, o apartamento onde morava um dos sócios, Antonio Lima) e confiscou uma cópia de AS LIBERTINAS, na tentativa de identificar a ex-atriz. Lima, com muita esperteza, entregou apenas os dois episódios em que ela não aparecia. Infelizmente, nunca mais ouvimos falar de Carmem Montero.

 

MANIFESTO DO CINEMA CAFAJESTE

por João Callegaro

 Cinema cafajeste é cinema de comunicação direta. É o cinema que aproveita a tradição de 50 anos de exibição do "mau" cinema americano, devidamente absorvido pelo espectador e que não se perde em pesquisas estetizantes, elocubrações intelectuais, típicas de uma classe média semi-analfabeta.

 É a estética do teatro de revistas, das conversas de salão de barbeiro, das revistinhas pornográficas. É a linguagem do "Notícias Populares", do "Combate Democrático" e das revistinhas "especializadas" (leia-se Carlos Zéfiro). É Oswald de Andrade e Líbero Rípoli Filho; é "Santeiro do Mangue" e "Viúva, Porém Honesta": obras primas.

 É cinema tipicamente brasileiro, portanto é o cinema cafajeste paulista, sem bairrismos, porém com uma visão lúcida da fauna paulistana.

 Preparem-se cinéfilos frustrados, adoradores dos Cahiers e de Godard, pois o cinema cafajeste já é uma realidade. É o cinema de Rogério Sganzerla, o cinema de Roberto Santos (de "O Grande Momento" e o genial episódio de "As Cariocas"), de Mojica Marins; é o verdadeiro cinema paulista.

 E o seu valor será contado em cifras, em borderôs, em semanas de exibição: em público. E os filmes serão geniais.

São Paulo - 1968

Adendo (CR) - Líbero Ripoli Filho foi um diretor, ator e dramaturgo importantíssimo para o teatro paulista da década de 60. Ele encenou, por quase quatro anos, com um grupo semi-amador, a versão mais "oswaldiana" já feita do texto de Nelson Rodrigues. A "Viúva" de Líbero e elenco era um dos poucos espetáculo à altura da importância de "Roda Viva", "Na Selva das Cidades", "O Balcão" e "Rito do Amor Selvagem", no final da década.

 

A MINHA MELHOR PIOR CRÍTICA

 Veio de Ely Azeredo, crítico titular do Jornal do Brasil no final dos anos 60, a avaliação mais desairosa que algum filme realizado por mim, recebeu até hoje.

 O filme chamava-se "AUDÁCIA!" e, de certa maneira, o título já dizia tudo.

Com o tempo, a reação ácida do crítico acabou se tornando, para mim, um troféu.

 Apesar das palavras ácidas - e deflagradoras - de Ely, a minha melhor pior crítica, veio de um discípulo mineiro do veterano crítico carioca, e cujo nome - sinceramente - eu não me lembro:

"Audácia!" é um anti-filme. Além do elogio quase retórico das delícias do "barato", o filme dispara frases de efeito como dardos à esmo, que normalmente voltam como bumerangue, e ainda por cima tem uma câmera tão trepidante que chega a provocar o deslocamento da retina".

 

ANA KARINA NATIVA

 Meu episódio, intitulado "A Badaladíssima dos Trópicos X Os Picaretas do Sexo", foi totalmente improvisado durante as filmagens e abria com uma declaração da cineasta-protagonista, Paula Nelson: "Temos que fazer filmes péssimos!".

 A atriz que interpreta Paula Nelson tinha sido minha namorada na adolescência.

 Uma semana antes de começar a filmar meu episódio encontrei Maria Cristina Rocha na saída de uma das lojas da Mobilínea, onde ela trabalhava. Naquele momento me veio a idéia de convidá-la para personificar a cineasta do meu filme. É evidente que eu enxerguei nela o meu alter-ego feminino; afinal, ela seria a minha melhor porta-voz, já que me conhecia tão bem: física, mental e espiritualmente. Ela levou algum tempo até decidir aceitar o desafio. E acho que ela me achou, naquele reencontro inesperado, meio "p´ra lá de Bagda"; muito "experimental" para o gosto dela...

 Mais tarde ela viria a confessar que tivera a impressão que eu deveria estar exagerando nos "secos e molhados"; muito mais nos "secos", para dizer a verdade.

 Logo no primeiro dia de filmagem, eu coloquei na boca dela todas as minhas "palavras de ordem" da época: "Devemos decepar o fotograma de encomenda!".

 Ela era extremamente "cinegênica" e podia ter, tranqüilamente, seguido a carreira  de "atriz-fetiche" do cinema paulista. Não quis.

 Era inteligente, bem humorada e instintiva. Jairo Ferreira havia apelidado ela de "Ana Karina brasileira".

 Durante as filmagens ela foi convidada por Antunes Filho para protagonizar "Compasso de Espera"; não aceitou. Mojica Marins, com quem havia contracenado na abertura do episódio, tentou contratá-la como protagonista de seu futuro longa; ela não levou à sério.

 Acho que o cinema não fazia mesmo parte do mundo dela e, após a aventura de vida que foi a filmagem de "Audácia!", ela retornou a sua profissão original de decoradora numa firma de imenso prestígio.

para ler mais sobre "A BADALADÍSSIMA DOS TRÓPICOS"

UM MIMO PARA JAIRO FERREIRA


Jairo Ferreira, assistente de direção e co-roteirista, durante as filmagens de "A Badaladíssima dos Trópicos", azeitando o espírito para improvisar uma das frases deflagradoras de Paula Nélson, a "Agnes Varda do cinema indígena".