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Número 02

20 de Abril de 2004

 

 

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Número 01 - 03/04/2004

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LEMBRANÇAS DE UM PRODUTOR NEFELIBATA

E UM AMIGO E TANTO

 

 Foi até irônico.

 Na noite da projeção do ótimo documentário "O Galante Rei da Boca", de Alessandro Gamo e Luis Rocha Melo (o Morris Albert), no festival de documentários É TUDO VERDADE, saimos após a projeção na companhia de Mario Vaz Filho, Claudio Portioli, Luis Felipe de Miranda, Daniel Chaia e parte da equipe do filme para tomar uma cerveja no bar da esquina do CineSesc.

 Durante quase duas horas, ao invés de falarmos do Galante (sempre uma figura notável) falamos animadamente de Renato Grecchi, o produtor de "CORRIDA EM BUSCA DO AMOR" (e, de certa forma, foi o cara que revelou Os Trapalhões para o cinema, quando produziu "2000 ANOS DE CONFUSÃO" e "A ILHA DOS PAQUERAS").

 Renato Grecchi esteve ligado, de uma forma ou outra, aos meus três primeiros filmes: os episódios em AS LIBERTINAS e AUDÁCIA!, e o longa CORRIDA EM BUSCA DO AMOR.

 Quando Callegaro, Lima e eu interrompemos as filmagens de AS LIBERTINAS, por total falta de recursos, foi o Renato que nos levou ao Rio de Janeiro, para conversarmos com o sr. Valanci, da Franco-Brasileira, que ficou nosso sócio no sucesso de vinte semanas em cartaz.

 No dia em que eu e Antonio Lima resolvemos juntar umas poucas latas de negativo preto e branco e começamos a filmar as primeira imagens documentais de AUDÁCIA!, foi o Renato que emprestou quatro ou cinco cruzetas, uma cadeira de roda, mais umas dez latas de pontas de negativo e o equipamento de câmera para iniciarmos a aventura dos dois episódios de ficção. No final das filmagens, o Renato foi buscar dinheiro no Rio de Janeiro, com o saudoso Osiris Parcifal de Figueiroa, dono do Cineac Trianon e do Cine-Hora, para concluirmos a película.

 Renato Grecchi, como produtor de cinema, era um folclore ambulante. Na produção de "CORRIDA", nós da equipe técnica transitamos do paraíso ao inferno e depois do inferno ao paraíso. Começamos no melhor hotel de Amparo, interior de São Paulo, e duas semanas depois estávamos literalmente na rua.

 Por uma semana dormimos numa casa abandonada da prefeitura em vinte e poucos colchões espalhados pelo recinto. Parecia ruim, mas não era: é preciso lembrar que eu tinha pouco mais de 22 anos e uma adrenalina à mil. Foram sete noites de farra com visitas constantes das "moças alegres" da zona local. O saudoso Carlos Bucka, com seus cento e cinquenta quilos distribuidos pela pança feliz, deve ter emagrecido trinta quilos naquela semana, com tanto exercício muscular estimulado. Um dia apareceram três menores de idade querendo aplicar o golpe do "toma que o filho é teu!" na moçada da equipe. Renato Grecchi virou um "produtor das antigas" da noite para o dia: não só expulsou as golpistas como foi dar queixa na polícia "por atentado ao pudor". De dia o ambiente ficou seríssimo, mas à noite - na companhia das ilustres e venerandas "senhoras do conselho" - a equipe e o elenco masculino recarregavam as baterias com vasta troca de óleo.

 Quando já estavamos nos habituando ao convívio comunitário e/ou tribal fomos arremessados para um dos hotéis cinco estrelas de Serra Negra; cada qual em quarto separado. Se por um lado fomos contemplados com uma boa dose de mordomia, por outro as filmagens se transformaram numa temporada forçada no convento.

 Com Renato Grecchi era assim: tudo ou nada!

 Ele mentia descaradamente para os seus diretores e co-produtores, dizia que tinha dinheiro, e não tinha; dizia que ia contratar o tal ator que eu havia solicitado, e não contratou.... Apesar disso, tenho certeza que nenhum sócio ou diretor guardou mágoa de Renato Grecchi. Não dava para não gostar dele: se ele tivesse apenas um real no bolso e surgisse algum técnico pedindo dinheiro emprestado; ele dava o real que tinha (sem pedir de volta) e voltava à pé para casa; e olha que ele morava em Interlagos - qualquer paulista treme nas bases só de imaginar ter de andar à pé do centro para Interlagos. Pois Renato Grecchi fez isso, no mínimo, uma três vezes, emprestando dinheiro aos amigos....

 A linda noite (com direito à ovação da platéia exigente do Festival É Tudo Verdade) da exibição do documentário de Alessandro Gamo e Luis Rocha Melo (Prêmio ABD 2004) só foi ofuscada por uma notícia dolorosa dada por Mario Vaz e Portioli: Renato Grecchi havia falecido há mais de um ano, quando gerenciava um cine-teatro adulto da rua Aurora. Eu nunca soube do incidente. Nenhum jornal noticiou.

 Para matar a saudade deste estranho e querido amigo, produtor do meu primeiro longa metragem, estou anexando a única foto que possuo dele: um flagrande das filmagens de A BADALADÍSSIMA DOS TRÓPICOS X OS PICARETAS DO SEXO, episódio do longa metragem AUDÁCIA!, no qual ele foi a verdadeira "eminência parda" da produção.

 

 Renato Grecchi, o cara de óculos escuros e sorriso debochado que está no canto direito da foto (ao lado de Silvinha Moreiras e do falecido José de Almeida), nunca cansou de me dar carona em seu Studbacker antigos, nas noites que ficávamos na Boca para a última cerveja e ele tinha de ir para Interlagos. Ele nunca tirou carta de motorista, foi pego mais de trinta vezes, mas nunca foi preso ou teve que pagar multa aos guardas. Ele tinha uma conversa irresistível; mas nunca canalha. Pior, poucos souberam que ele nunca teve carteira de trabalho, de identidade, cic, ou plano de saúde. Era um autêntico empresário do "parque industrial paulista": bárbaro e nosso.

 Acho que Renato Grecchi nunca existiu realmente, que foi sempre uma entidade, jamais um ser social de carne e osso, daqueles que seguem fielmente as regras sociais da boa burguesia. Sem lenço, sem documento, alguns tostões no bolso (que sempre dividiu com alguém mais necessitado). Ele amava os amigos, as mulheres, a alegria e, é claro, a fantasia (onde a verdade e os compromissos sociais nunca possuiram livre trânsito).

 Tenho certeza que está no céu; no mínimo, jogando ping-pong com São Pedro (e ganhando todas as partidas - no saque de efeito

 


O MITO DO ROLO 100

 

 Entre todas as superstições das equipes de cinema profissional nenhuma é tão  levada à sério quanto o "Mito do Rolo 100".

 O chefe-eletricista Marquinhos de Noronha é capaz de abandonar um filme se o produtor não cumprir o ritual.

 Corre o boato que Walter Salles Jr. esqueceu de seguir "o mandamento do Rolo 100" nas filmagens de "Abril Despedaçado" e deu no que deu (ou não deu). Em "Central do Brasil" choveu champanhe na catinga.

 A liturgia é a seguinte: todo filme que chega a rodar o rolo de filme (ou chassis) número 100, precisa ser premiado com a equipe e os atores com champanhe da boa.

 As fotos em anexo flagram o momento em que eu e Jacob Solitrenick, diretor de fotografia, estouramos a primeira garrafa de Moet Chandon que a produtora Sara Silveira mandou para o local das filmagens de "GAROTAS DO ABC" (ex- Aurélia Schwarzenega).

 

 

 Nas filmagens de BENS CONFISCADOS, Betty Faria, protagonista e co-produtora, mandou buscar o melhor champanhe do litoral do Rio Grande do Sul, para que Marquinhos de Noronha não abandonasse as filmagens.

 Corre a crendice que filme que não estoura champanhe no rolo 100 pode, entre vários revezes:
a) não terminar
b) ir muito mal de bilheteria
c) não ser lançado comercialmente
d) ficar uma bosta

 


TROFÉU

QUEPE DO COMODORO

 

 

EDIÇÃO 1 - ABRIL DE 2004

 Confesso que essa idéia foi literalmente copiada do ALMANAQUE, da Maria do Rosário Caetano, o maior manancial mensal - e gratúito - de notícias sobre o que está acontecendo de importante no meio cinematográfico nacional.

Aliás o Reduto do Comodoro é conseqüência de uma pesquisa pessoal para a "socialização total" do ALMANAQUE; mas a sua editora, como todo artesão radical prefere "trabalhar pesado". Um dia ela ainda vai descobrir as delícias (e a facilidade) da "blogagem".

A idéia é da Rosário; mas como diria Goethe, uma boa idéia, uma boa frase, uma boa imagem; enfim, tudo o que é bom - e justo e substância - deve ser copiado; ou reciclado, ou "citado", ou ressuscitado.

Todas as terceiras semanas do mês serão distribuídos QUEPES DO COMODORO para as personalidades que, obviamente na opinião do editor do Reduto e deste jornal, se destacaram no fazer e pensar cinema no Brasil.

 

Os três primeiros QUEPES DO COMODORO, de 2004, vão para:



PAULO JOSÉ

 Pela insígne personificação do protagonista falto e melancólico de "BENJAMIN", o filme de Monique Gardenberg.


JORGE COLI

 Pelo melhor texto sobre o cinema de Roman Polanski - dia 11 de Abril, na coluna "Ponto de Vista", do suplemento MAIS!, da Folha de São Paulo, publicado no mês de sua visita ao Brasil.



GLÊNIO PÓVOAS

 Pela esplêndida programação que vem concebendo para a Sala Santander, de Porto Alegre. E não estou falando especificamente da mostra dos meus filmes fetiches, mas da sublime homenagem para Mario Carneiro, que merecia dois quepes (de ouro).



DESTAQUE IMAGÉTICO DO MÊS

 Para a magnífica e antológica seqüência de BENJAMIN, filme de Monique Gardenberg, onde Paulo José e Cléo Pires ficam se entreolhando ao som de "Moça", cantado "in persona" por Wando, no meio de uma gincana escolar.

 


 

Algumas palavras sobre "Benjamim", o filme

 

É um filme que se assiste com imenso prazer apesar de, estilísticamente, atirar à esmo à cada seqüência. Quando o filme respira pelos próprios pulmões e aquém da subserviência ao brilho da fotografia (desculpe Marcelo Durst, você é fantástico, mas se há uma coisa que pesa neste filme é, exatamente, a exuberância incômoda da fotografia), quando o filme não busca a "assinatura" à fórceps, quando ele se distancia do clip e da estética publicitária (num primeiro momento, aparentemente, isto até se justifica devido à profissão do protagonista), enfim quando "BENJAMIM" abandona o fetiche formal e a firula técnica, ele atinge a poesia plena e uma elegância rara. E, nestes momentos, "Benjamim" remete a alguns dos instantes mais memoráveis do cinema de Antonio Calmon e Haroldo Maroldo Barbosa, dois belíssimos autores do cinema brasileiro independente.


 As seqüências de Cleo Pires no escritório, contracenando com Nelson Xavier, a câmera à altura das suas ancas, e a impressionante cena do estupro, atestam que Monique Gardenberg possui talento e ousadia de sobra. Fiquei fã desta artista à partir da peça de quatro horas (que parecia uma), "Os Sete Afluentes do Rio Ota", dirigida por ela e suscitada pela obra de Robert Lepage.

À destacar ainda, o carisma e a cinegenia de Cleo Pires e a difícil e sensível adaptação do romance para o cinema, realizada à seis mãos por Monique, Jorge Furtado e, o sempre surpreendente, Glênio Póvoas.