OLHAR E SENSAÇÃO

Olhar e Sensação (curta-metragem), 1994.

Filme e música de Carlos Reichenbach

Texto extraído de “A Consciência de Zeno”, de Italo Svevo

Fotografia de Conrado Sanchez

montagem e edição de Cristina Amaral

assistente geral Sérgio Concílio

Diretor de produção: Eduardo Santos

Produção executiva de Sara Silveira e Sérgio Cotrim

produtores

Secretaria da Cultura do estado de São Paulo

Museu da Imagem e do Som

Dezenove Som e Imagens

Carlos Reichenbach & Equipe

35mm, Colorido, 10'

 

Sinopse

Vôo livre na direção da memória, do instinto, do olhar e das sensações. Busca obsessiva de ângulos inesperados do Vale do Anhangabaú. A cidade incógnita através da pupila do animal enjaulado. Autor e criança mergulham além de suas janelas. Todos os caminhos acabam num túnel. A herança de Ló no olhar de pedra do ser inerte, onde abelhas fizeram sua colméia. Cinema aspirando à pintura e ao traço; rascunhos da relação amor-ódio entre o artista e a sua cidade.

 

comentário

 Realizado por ocasião do evento multimídia Arte/Cidade e primeiramente exibido em sua versão muda na parede suja de um prédio do Vale do Anhangabaú, “Olhar e Sensação” foi uma investida no cinema conceitual. Tratava-se de exibir aos pedestres que passam diariamente no local, imagens com as quais estivessem familiarizados, mas com um olhar diferenciado, de forma a parecer absolutamente inéditas, como se as imagens projetadas na parede funcionassem à maneira de um espelho deformador, capaz de revelar a alma e o sentido do cenário urbano. Por insistência de Nélson Brissac Peixoto, curador do evento Arte/Cidade, e a quem o filme é dedicado, Reichenbach concluiu e sonorizou o filme, inspirando-se em “Auto-Retrato de Dezembro” de Jean Luc Godard. Refletir na hora da montagem sobre os motivos que o levaram à captar aquelas imagens da cidade foi a concepção que determinou a existência de “Olhar e Sensação” como filme sonoro. Reichenbach compôs a trilha musical norteado por estes conceitos, e encontrou nas páginas de “A Consciência de Zeno” a tradução literal de seu inconsciente transfigurado nas imagens filmadas.

A estátua “O Semeador”, do escultor veronês Gaetano Fraccaroli, cuja obra buscava a expressão capaz de traduzir a vida a cada instante, busca remeter ao mito de Ulysses, numa alusão a um dos filmes preferidos de Reichenbach, “Le Mépris” de Godard. A própria música composta para a cena se inspira no “Tema de Ana Magdalena” de Johann Sebastian Bach, referência básica da trilha musical de George Deleure para o clássico francês.

 O menino que aparece nas fotos antigas é o próprio realizador. Não é por acaso que na fotografia escolhida para encerrar o filme, Reichenbach apareça de mãos dadas com o seu pai, precocemente falecido, caminhando por uma estrada vazia. Esta imagem ao som de ondas em movimento é quase uma síntese do seu cinema.

 Reichenbach lamenta não ter podido filmar um close de um waterbruck, animal de origem australiana, que ele considera o mais belo ser vivo da face da Terra. O único casal existente no Brasil desta raça de cervos, não estava disponível no Zoológico de São Paulo, no dia das filmagens. “Gostaria de ter encerrado ‘Olhar e Sensação’ com uma fusão dos olhos do animal dono de uma beleza quase prosaica, sobre a fotografia de pai e filho.”. No curta metragem seguinte, "Equilíbrio & Graça", o diretor pode incluir vários planos do "ser vivo mais perfeito do planeta", como afirmava o ex-diretor do Zoológico de São Paulo, o professor Dr. Faiçal Simon.

 A primeira exibição pública da versão sonora aconteceu no Museu da Imagem e do Som (MIS), em 21 de Outubro de 1994.

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